05 novembro, 2013

PELOS CABELOS

Diane Arbus

Ando a perder cabelo desalmadamente, o que me anda a deixar, digamos eufemisticamente, apreensivo. Pronto, ainda não chegou o momento de entrar na casa de banho, olhar para o espelho e pensar que estou a ver o Yul Brynner a fazer de Taras Bulba. E, já agora, também o advérbio com o qual enfatizo mais este escatológico prurido da minha existência também não significa uma putativa associação entre a alma e tão insidiosa problemática capilar. De facto, como mostra S. Agostinho no seu De Quantitate Animae, a alma não tem extensão, volume, não ocupa qualquer espaço nem está dividida em partes como um objecto material. Assim sendo, não é possível tal elevada substância albergar qualquer tipo de elementar natureza capilar, ficando assim o problema reduzido ao cada vez mais descabelado couro cabeludo, e isto, por muito metaforicamente careca que a minha alma possa estar a ficar.
Perder o cabelo, sobretudo num homem, é um processo normal. Daí eu questionar se faz sentido um filósofo como eu, tão dedicado aos elevados assuntos do espírito, ver a sua estóica quietude alterada com tão comezinho assunto. E não, não me acalma os ânimos saber de filósofos francófonos como Manuel Maria Carrilho ou Bernard Henri-Levy que bem poderiam dizer "La Chevelure c'est moi" (o A. C Grayling não é francófono mas também pode entrar no rol, e juro que isto não é uma boca foleira para insinuar que pode usar rolos no cabelo). Em suma, não estou sozinho nestas minhas íntimas ralações com o meu cabelo.
Só que não é a parte de fora das caixas cranianas que faz a parte de dentro. Os homens, felizmente para mim, não se medem aos palmos, mas também se pode dizer que os filósofos, felizmente para o Foucault, não se medem pelo cabelo. Mais: e por onde é que vai pegar um dos maiores nomes da filosofia, Aristóteles, para deitar abaixo um outro nome maior, o seu mestre Platão? Pelo cabelo. Sim, ao ridicularizar a possibilidade de a ideia de cabelo estar inteligivelmente arrumada ao lado de ideias superiores como as de justiça, bem ou virtude. E ridiculariza porquê? Porque considera o cabelo matéria superficial, desprezível e indigna.
Só que, entretanto, quis o destino que eu viesse a ser salvo por um livro. Os livros têm destas coisas, umas vezes são a nossa perdição, outras a nossa salvação. Veio parar-me às mãos o Thesaurus Pauperum, do nosso Pedro Hispano, um importante livro da medicina medieval onde sugere mil e um tratamentos para os respectivos mil e um problemas de saúde. E como abre o livro, esse livro de tesouros para gente pobre como eu? Quer tentar adivinhar? Então, já está a desconfiar? Sim? Pois, bingo, adivinhou! A queda de cabelo!
Acontece que Pedro Hispano não foi um homem qualquer. Foi um importante filósofo, médico, naturalista e, last mas mesmo nada least, papa! O único papa português! Ora, quando o próprio representante de Deus na terra se dá ao trabalho de pesquisar sobre a queda do cabelo, como não achar tal assunto digno de um filósofo para quem nenhum tesouro está na sua vida guardado?