03 novembro, 2013

MADALENA SEM AÇÚCAR

Diane Arbus | NYC, 1965

Não sei se envelhecer nos torna inevitavelmente mais cépticos e pessimistas mas também não estou com vontade de ir agora para a rua perguntar às pessoas se estão a ficar mais cépticas e pessimistas. Por agora, vendo esta reportagem, sou levado a acreditar que não. E embora talvez devesse sentir o mesmo entusiasmo por este revivalismo, uma vez que a caixa dos buraquinhos faz parte das minhas memórias de infância, confesso que não consigo entrar nesse encantado registo.
Não se trata de invocar o pavesiano chavão de que nunca se deve voltar a um lugar onde se foi feliz. Porque, neste caso, não se trata do nosso desejo de lá voltar mas de desejar que os nossos filhos ou netos regressem por nós ao lugar onde fomos felizes, vivendo o que nós vivemos. Mais do que uma projecção, trata-se de uma metempsicose, como se o nosso penado espírito infantil fosse habitar os corpos dos nossos filhos e netos. Trata-se, porém, de uma valente ilusão.
Estamos a falar de um tempo em que não havia hipermercados com quilómetros de prateleiras só com chocolates de todos os gostos e feitios e que se levam para casa juntamente com o arroz, o feijão e o detergente para a loiça. Os pobres não comiam chocolate e os que não eram pobres também não tinham, como hoje, chocolate à disposição para comer. Comer chocolate era um momento festivo para uma criança, uma fugaz incursão no princípio do prazer nesse grande continente que é o princípio da realidade, e era dentro desse espírito festivo que furar a caixa para saber a cor que calhava em sorte, adquiria toda a sua magia.
Passa-se com os chocolates o mesmo que com os gelados. Lembro-me de na Primavera já estar a pensar que faltava pouco tempo para aparecerem os gelados. Era no Verão que se comiam gelado, tendo que se dar uma volta de quase 360 graus ao círculo do tempo para se poder voltar a comê-los. Hoje, comem-se gelados todo o ano, por tudo e por nada, e, tal como os chocolates, de marcas e sabores que nunca mais acabam. E o mesmo se passa com os sumos, que eram de laranja ou ananás e pronto. Daí a elegância dos sumos Compal que não só não eram refrigerantes como tinham outros sabores: pêra, pêssego e o moderno tutti frutti. E tudo isto antes da coca-cola, da Seven up, da Sprite e de mais não sei quantas marcas de sumo que hoje se bebem como se fossem água.
Daí este nostálgico romantismo dos pais com a sua velha caixa de buraquinhos ser absolutamente inocente. Claro que as criancinhas irão sempre achar alguma graça ao suspense da cor. Como não achar? Como acham piada às dezenas de prendas que recebem no Natal ou no aniversário para logo pouco depois se esquecerem delas. Nada que ver com o velho entusiasmo dos pais, quando um chocolate era um chocolate era um chocolate e não apenas um chocolate.