02 novembro, 2013

ÍTACA

Ferdinando Scianna

Quando, tantos anos depois, Ulisses regressa a Ítaca, está muito longe de ser o mesmo que de lá saiu. Como poderia sê-lo depois do interminável cerco de Tróia e de ter vivido mil e uma aventuras, qual delas a mais insólita? Ulisses, o astuto, Ulisses, o homem experiente, regressa ainda mais astuto e experiente. Mais: depois da sua Odisseia de regresso, Ulisses é, por antonomásia, a própria experiência, o homem que tudo viveu e com infinitas histórias para contar. Ulisses poderia ser uma Sherazade mas com conhecimento de causa, uma Sherazade que se narra a si mesma, em mil e uma possíveis noites de histórias para contar.
A viagem de regresso para Ítaca é dramática. Uma verdadeira odisseia. O mesmo é dizer que Ulisses é em si mesmo dramático, uma vez que Ulisses (Odisseus, em grego) é, mais uma vez por antonomásia, a própria ideia de viagem. Acontece que Ulisses é aventureiro, não porque o quisesse ser, mas apenas porque quer regressar a casa e não o consegue e é bom pensar que não passou apenas por terríveis dramas mas também por experiências utópicas (a ilha de Calipso).
Quando, finalmente, o consegue, tendo que se disfarçar pelas razões que todos sabemos, como é que ele consegue provar quem é? Pelo seu passado. A sua velha ama reconhece-o graças a uma cicatriz que tem desde criança, Penélope reconhece-o devido a um segredo que só eles partilham a respeito da construção da sua cama, o pai reconhece-o quando o filho começa a nomear os nomes das árvores que aquele lhe ensinou quando era criança. E não esquecer Argos, o seu cão (ah, um cão, esse eterno símbolo da mediocritas doméstica e da fidelidade), que logo o reconheceu apesar do disfarce.
Todo o percurso de Ulisses é construído pela busca de um futuro completamente dependente de um passado que lhe confere sentido. Viver, para Ulisses, não é acumular  aventuras, aventura sobre aventura, aventuras atomicamente dispersas num tempo linear, ou viver uma vida imortal tal como a que lhe foi oferecida por Calipso. Não existe uma pulsão de futuro em Ulisses como desejo de mais e mais terras por conquistar. O futuro, em si, não tem qualquer valor, viajar na sua direcção só porque é futuro, não tem qualquer sentido. O futuro não passa de um nada, de uma dimensão temporal vazia, de um tempo oco. A grande lição de Ulisses é a de que o auto-conhecimento passará sempre por um auto-reconhecimento. E isso tanto é válido para as pessoas como para as comunidades.
O grande perigo que nos assola cada vez mais é a falta de memória. Perder a memória é perder o sentido. Podemos ter, nós, modernos, sofisticados GPS's com as coordenadas para Ítaca. Haverá sempre uma ideia de Ítaca no nosso horizonte. Resta saber para quê, se não sabemos quem somos e o que vamos para lá fazer.