14 novembro, 2013

FOI VOCÊ QUE PEDIU UM DAVID MOURÃO FERREIRA?

Sophie Riestelhueber| Eleven Blowups #5, 2006

Volto de novo a David Mourão Ferreira.
Tenho 8, 9, 10 anos, não consigo precisar, vou a Lisboa com os meus pais, estamos num restaurante, olho para o lado e vejo numa mesa David Mourão e Vitorino Nemésio a almoçar. Ainda hoje me lembro, como se fosse ontem, da enorme excitação por estar a vê-los, ali, ao vivo, mesmo ao pé de mim. Não, eu não era um geniozinho, uma criancinha precoce que lia Vitorino Nemésio ou David Mourão Ferreira em vez do Texas Jack e que já na altura queria ser neurocirurgião. Era uma criança normal, que gostava de jogar à bola e às caricas, de andar de patins e de bicicleta, aluno entre o medíocre e o suficiente, e com o clássico desejo de acordar doente para poder ficar na cama a dormir. Como explicar então o meu infantil entusiasmo perante a presença de dois homens que eram grandes vultos da nossa cultura e não jogadores de futebol, cantores ou actores?
Explica-se pelo facto de naquele tempo haver um só canal de televisão, que assim concentrava todo o entretenimento familiar. Para crianças, jovens, adultos ou velhotes, ver televisão era ver o que aparecia no solitário canal que funcionava por isso como doador de sentido, eixo legitimador do que seria normal e desejável ver. Se aparecia na televisão é porque era importante. E o que aparecia? O que era o mainstream televisivo dos anos 60 e 70, o que via toda a gente sentada em frente ao televisor?
Para além das populares séries estrangeiras e do entretenimento mais popular, a televisão era feita de António Lopes Ribeiro a falar de cinema, António Vitorino de Almeida a falar de música clássica, João Villaret a falar poesia, Vitorino Nemésio a falar em associação livre, José Hermano Saraiva a falar de história, David Mourão Ferreira a falar de literatura, Artur Varatojo a falar de mistérios policiais ou Sousa Veloso a falar de agricultura. Para além disso, um dia por semana, a parte do país que tinha televisão sentava-se para assistir à noite de teatro pela qual passavam os mais consagrados actores do Teatro Nacional. Os mais velhos lembrar-se-ão ainda das Charlas Linguísticas do padre Raul Machado, uma verdadeira vedeta nacional, ao que parece, pondo o país a ouvir falar de gramática.
Claro que o povo profundo não via televisão e tudo isto lhe passava ao lado, sendo a televisão um brinquedo das classes médias que estimulava o gosto pela música, as letras e as artes. Hoje, tudo isso desapareceu. Deixou de haver um eixo aglutinador, um cânone cultural e de entretenimento, estando a agenda cada vez mais disseminada. E tal como aconteceu com a escola, também a chegada tardia do povo à televisão, mais do que levar o povo a copiar os padrões das classes médias, levou antes estas a reproduzirem cada vez mais o mau gosto, cada vez mais sórdido e primário, do povo.
De certeza que, hoje, poucas crianças de classe média reconheceriam um homem como David Mourão Ferreira ou Vitorino Nemésio na mesa de um restaurante. Eu reconheci e era apenas um garoto da província que via televisão antes de ir para a cama.