18 novembro, 2013

ESTE POST QUE VOS DEIXO

Elliott Erwitt | 1991

Uma mosca sem valor
poisa com a mesma alegria
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria

Pela chã poesia da abertura já se pode ver que não vou falar de Homero, Píndaro, Hölderlin, Rilke, Wordsworth, Coleridge, Baudelaire, Mallarmé Camilo Pessanha, Kaváfis ou Nuno Júdice. Muito longe disso. Hoje acordei neo-realista, depois de ontem saber que o novo presidente da câmara de Loulé é neto do poeta António Aleixo, autor da quadra acima transcrita. Mal sabia o velho poeta, semi-analfabeto, pastor, cauteleiro e cantor popular que andava de feira em feira, que iria ter um neto doutor, a presidir a um concelho por onde terá andado a vender cautelas. E, ironia do destino, dono de uma já apreciável careca.
Vítor Aleixo chegou à Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa em 1976. Ora, isso só foi possível por ter andado a estudar no Liceu Nacional de Faro, uma escola pública, em cujas cadeiras se sentou ao lado dos filhos dos doutores, engenheiros e arquitectos da capital algarvia.
Cada família é uma família e, com todo o respeito pelo grande escritor russo, creio que cada uma o será à sua maneira, sejam felizes ou infelizes. Mas há um lugar onde toda e qualquer diferença doméstica deve ficar à porta: a escola pública. Claro que se trata de uma igualdade que não apaga as prévias desigualdades. Mas deve atenuá-las, colocando todos os alunos na mesma linha de partida para que possam todos chegar às mesmas metas, independentemente de o conseguirem ou não. Chama-se a isso igualdade de oportunidades. Eu sei que a ideia de igualdade já teve melhores dias, e para isso terá alguma responsabilidade a tenebrosa carga ideológica de outrora, vendida pelos promotores do socialismo real. Mas a simétrica beleza da igualdade, o equilíbrio da igualdade, a ideia de justiça inerente à igualdade, também não pode ficar manchada pelas trevas de uma ideologia de sinal oposto, a qual, partindo do pressuposto factual das naturais desigualdades que nos separam, pretende levar estas para níveis que implicam um retrocesso civilizacional, após décadas de importantes, e justas, conquistas sociais.
Quando estou numa sala de aula a ensinar a 30 alunos a filosofia moral Kant ou o que é um argumento falacioso, não estou a ensinar ricos e pobres, filhos de licenciados ou de pais com o 9º ano que trabalham desde os 16 anos. Apesar de o serem, isso acaba a partir do momento que entram na sala de aula e se sentam para aprender de maneira igual. E só uma escola pública de qualidade pode fazer com que as diferenças familiares e sociais que os colocam em situação de desvantagem, sejam ultrapassadas. Ou seja, quanto pior for o ensino público menos essas diferenças podem ser combatidas, compensadas, equilibradas, significando isso abandonar as crianças e jovens ao seu destino doméstico.
Estou aqui a defender um processo de engenharia social? Não, trata-se de um direito natural que o Estado tem a obrigação salvaguardar. Neste sentido, trata-se mais de uma medicina social, uma terapia social que permite sarar desigualdades que nada têm que ver com responsabilidades individuais, mas sociais, políticas e económicas. Engenharia social, e da mais asquerosa e repugnante que pode haver, é o lobo mau esconder a sua ideologia, vestindo a pele da liberdade, do direito das famílias a escolherem a escola que pretendem e da ideia de que é através da livre concorrência que todos podem melhorar, da eficácia, a fim de poder tirar benefícios para si e para a sua matilha.
Por este andar, o mais certo é que dentro de muito pouco tempo os netos dos Aleixos deste mundo comecem a ficar irremediavelmente em desvantagem face a elites sociais cada vez mais protegidas nas suas redomas ideológicas e legislativas. E voltarmos de novo a acordar neo-realistas.