01 novembro, 2013

DOS CONSERVADORES

Alfred Eisenstaedt | Paris, 1963

Nalguns países do norte da Europa (incluindo a rica e poderosa Alemanha) há férias escolares nesta altura do ano. São as chamadas férias da batata e vêm do tempo em que as escolas fechavam para os os filhos poderem ajudar os pais na apanha da batata. Hoje, nem pais nem filhos vão apanhar batatas. Mas manteve-se a tradição.
Hoje, dia de Todos os Santos, era suposto ser feriado em Portugal. Toda a minha vida vivi este feriado, como sempre vivi o 5 de Outubro ou dia da Restauração. Claro que os santos já não são o que eram, os mortos já não são o que eram e também já são poucas as crianças que se atrevem a bater às portas em busca de bolinhos e guloseimas como os meus filhos ainda chegaram a fazer. Uma leitura estritamente racional das mudanças sociais leva naturalmente ao fim de um feriado desta natureza. E será mesmo essa racionalidade utilitarista que, ironicamente, hoje, dia 1 de Novembro, permite compreender os terramotos provocados por este governo para pôr o país a tremer com tantas e desvairadas mudanças.
Mas a vida colectiva dos povos não se faz apenas de racionalidades várias. O homem é um animal simbólico que vive no tempo, sendo o próprio tempo vivido simbolicamente. Enquanto o animal vive fora do tempo, reduzido à imediatez de um eterno presente, nós, pelo contrário, aprendemos a viver o tempo, não de um modo linear mas circular. O tempo não é uma linha comprida cujos pontos vamos atravessando de um modo informe e indiscriminado. Não, o tempo é um eterno retorno graças ao qual vamos vivendo e revivendo as mesmas coisas, permitindo assim as rotinas, previsibilidades e regularidades de que tanto precisamos. Não se trata só de não ir trabalhar ou de não ir à escola num feriado. Trata-se de marcos espetados no calendário, evitando assim que este seja apenas uma informe sucessão de profanos dias de trabalho e profanos fins de semana vivida por pessoas cada vez mais reduzidas à sua condição força de trabalho que vive para produzir e organiza a sua vida em função dessa produção, perante um calendário cada vez mais niilista. 
E resta saber, pensando agora nas criativas cabeças de quem nos governa, e com a única linguagem que elas compreendem, se haverá mesmo vantagens económicas em abolir este feriado. Não sou economista, não posso fazer contas e por isso não falo do que não sei. Mas mesmo que houvesse alguma vantagem nisso,  o que se perdia numa percentagem irrisória seria largamente compensado com um calendário de rosto humano e onde a consciência dos mortos seria eternamente reanimada com a consciência dos vivos.