13 novembro, 2013

DAVID MOURÃO FERREIRA


Das duas vezes que falei com David Mourão Ferreira, foi ele quem veio falar comigo. 
Sou um fedelho com 20 ou 21 anos e ando meio perdido num corredor da Faculdade de Letras de Lisboa em busca de uma das suas bibliotecas por causa de um livro de Rodrigues Lapa do qual precisava para a cadeira de Filosofia em Portugal. De repente, vejo o escritor dirigir-se para mim, perguntando-me se eu precisava de alguma coisa. E eu lá disse ao que ia. Era famosa a sua grande atracção pelo sexo feminino. Eu,  porém, não usava saia mas uma barba de monge ortodoxo e muito provavelmente vestido com o meu muito adorado casaco verde do exército alemão com ar de ter acabado de chegar da batalha de Estalinegrado. Pede-me então para o acompanhar e, como ganso do Konrad Lonrenz, lá vou todo feliz da vida atrás dele até à porta da biblioteca perdida. Eu agradeço, ainda mal acreditando no que me acabara de acontecer, e ele lá voltou à sua vida certamente com aquele ar de quem tem a vida inteira para o fazer.
Um dia, vou com um colega à Gulbenkian. Por mero acaso, passamos no Grande Auditório e vejo-o à entrada a conversar com duas ou três pessoas. De repente, vejo-o dirigir-se até nós, convidando-nos a assistir a um colóquio que ali estaria a decorrer. Foi há muitos anos, mas recordo bem o seu ar elegante mas ao mesmo tempo humilde a interpelar-nos. Declinámos o convite mas, atendendo ao modo como foi feito, não foi fácil.
Lembrei-me de David Mourão Ferreira graças à entrevista de Maria Filomena Molder na Pública de domingo, quando, a respeito dele, afirma «professor admirável, uma das pessoas mais afáveis que conheci, sem nunca deixar de ser crítico». Pode parecer coisa de pouca importância, enfim, apenas umas gratas e simpáticas palavras de antiga aluna que reconhece o valor do seu velho professor. Porém, lembrando-me destas duas situações, serei mesmo levado a pensar que a afabilidade seria um elemento estrutural da sua identidade.
Baldassare Castiglione no seu famoso e clássico O Cortesão, lança as bases do que será o verdadeiro comportamento cavalheiresco, as regras da cortesia, os comportamentos mais socialmente desejáveis. Hoje, já não há cavaleiros nem corte no seu sentido renascentista, época em que o o livro foi escrito, mas o sentido da cortesia e o prazer de se comportar como um verdadeiro cavalheiro bem podiam continuar a ser um ideal a seguir. Mas eu olho à minha volta e o que vejo é cada vez mais o contrário. As pessoas andam nervosas e irritadas, e a lógica do frívolo pragmatismo, funcionalidade e da lei da sobrevivência, parece ser cada vez mais o ideal a seguir.
David Mourão Ferreira, naquelas duas vezes, fez-me tornar importante apesar de não ter importância nenhuma. Muito diferente de cada vez mais pessoas que, apesar de não terem qualquer importância, querem-na toda só para si.