26 novembro, 2013

CAPITACLISMO

Dorothe Lange

É uma feliz coincidência dar no mesmo dia com esta e esta notícia. 
As pessoas não me levam a sério quando digo que sou anti-comunista e acho que já só me falta fazer o pino e dar uma cambalhota para provar que é verdade. Como se fosse uma bizarria, soando a exótica boutade, assim uma coisa gira para provocar o pessoal de esquerda mais sensível, uma daquelas coisas que se dizem quando ninguém nos liga e tentamos então ser engraçados para darmos um bocadinho nas vistas, sei lá, como se dissesse agora com o ar mais sério do mundo que tenho uma prostituta há seis meses cortada aos bocadinhos na minha arca congeladora e com a qual tenho feito uns belos pitéus. Não percebo a dificuldade em lidar com a sacrílega e blasfema ideia de ser anti-comunista. Ser anti-nazi ou anti-fascista soa óbvio, consensual, pacífico. Já ser anti-comunista cheira a vil reaccionarismo, intolerância e uma espécie de patológico ressabiamento. Confesso que não consigo perceber este critério quando se sabe que, no século XX ( e ainda hoje), o comunismo foi mais cruel, perverso e assassino do que o fascismo, e se tornaram claras as próprias aberrações endógenas desse sistema tão bondoso em teoria mas tão nefasto na sua aplicação.
O que o comunismo é, bem pode ser explicado através da primeira notícia. Aquela casa é, num plano microcósmico, o que foi o comunismo num plano macrocósmico: servidão, opressão, privação de liberdade, controle da vida individual, lavagem ao cérebro das massas, apesar do conforto e da segurança de mundo fechado sobre si próprio, sem alternativas que o desestabilizem. Mas foi precisamente a falência do comunismo, a consciência do seu opróbrio social e político que, anos depois do seu fim, contribuiu para tornar mais facilmente possível a segunda notícia.
O capitalismo pressupõe uma visão pessimista e optimista do ser humano. Pessimista, ao aceitar a impossibilidade de construir o paraíso na terra devido a uma incontornável imperfeição moral no código genético da humanidade. Mas é essa mesma imperfeição que se crê funcionar como força motriz do desenvolvimento social e do progresso. Como seria a humanidade sem pecados como a ambição, a inveja, o ciúme, a vaidade, o orgulho, o desejo de poder e de riqueza? Seria assim uma espécie de pasmaceira idílica sonhada por Rousseau. Eis a bem intencionada lógica dos vícios privados e das públicas virtudes de que fala Mandeville. Ou mesmo de Kant quando diz que é a necessidade de cada árvore apanhar mais a luz solar que faz com que cada uma cresça mais do que as outras, contribuindo isso para aumentar a mancha verde da floresta.
O problema, neste momento, não é a unilateralidade do capitalismo. Não me choca pensar que o capitalismo seja o sistema económico que permite criar mais riqueza, para benefício de todos. O problema é o capitalismo estar cada vez mais à solta, desgovernado, sem diques e freios. A história foi justamente implacável com o comunismo. Também o deverá ser com o capitalismo a respeito do qual se gosta de vender a ideia de que, apesar das imperfeições morais do ser humano, consegue gerir automaticamente os interesses de todos graças ao poder empreendedor de alguns iluminados. Não consegue. A máquina, entregue a si própria, por muito apelativa que seja para elites deslumbradas com o poder do capital, será sempre geradora de cataclismos.