29 novembro, 2013

AS RETICÊNCIAS

Antoine d'Agata| Sem Título, 2008

O que há de interessante nesta notícia não é o facto científico em si mesmo. Pronto, tudo bem, as mosquinhas da fruta serão danadas para a brincadeira, ainda bem para elas e para os cientistas que se divertem com estas fantásticas descobertas a respeito dos desvarios líbidinosos do atormentado insecto. Verdadeiramente interessante é o impacto retórico das reticências do título, abrindo a possibilidade, graças a uma maliciosa sugestão, de poder acontecer o mesmo com o ser humano. E é muito engraçado ver o duplo critério com que representamos ideologicamente os comportamentos animais, em função das diferentes idiossincrasias pessoais e colectivas. 
Se se der o caso de um comportamento animal poder servir para legitimar um comportamento humano análogo, o estudo do primeiro servirá como justificação do segundo, partindo-se do objectivo pressuposto de que somos também animais e não podemos desprezar essa evidência.
Se, pelo contrário, pretendermos libertar o ser humano de qualquer tipo de pressão biológica de natureza determinista, seguiremos então um discurso filosófico ou religioso marcado pela ideia do livre-arbítrio, anulando-se assim a anterior estratégia legitimadora. Nas aulas de filosofia de 10ºano é costume dar aos garotos um texto de Savater onde compara os comportamentos das térmitas aos de Aquiles e Heitor. Explica ele que enquanto as formigas estão geneticamente programadas para o combate, não podendo não o fazer, Aquiles e Heitor, sendo igualmente guerreiros, dispõem de um livre-arbítrio que lhes permite a possibilidade de combater ou não combater em função das suas crenças e valores, estas sim, as verdadeiras causas das suas acções, anulando assim o determinismo que prende as térmitas numa cadeia causal que lhe retira qualquer tipo de responsabilidade. 
Partindo desta perspectiva, podemos concluir que comparar moscas da fruta e seres humanos se trata de uma falsa analogia que leva a uma conclusão falaciosa. Moscas da fruta e seres humanos são animais, é verdade, mas os segundos não serão suficiente animais para se concluir que o que é válido para uns tenha que ser forçosamente válido para os outros. Árvores e seres humanos são ambos seres vivos mas o facto de haver entre os segundos quem aprecie cereais de chocolate não significa que com as árvores aconteça o mesmo. O que acontece é haver cada vez mais seres humanos que, ufana e orgulhosamente, fazem questão de ser mais animais do que à partida seria suposto. Quem escreveu aquelas reticências passou a ter na mosca da fruta uma suprema fonte de inspiração. E cada um bebe na fonte que lhe mata mais a sede.