17 novembro, 2013

AS NABIÇAS DE MARTIN HEIDEGGER

Vincent Van Gogh | Par de Botas, 1886

Sempre embirrei com as figurinhas parvas de Arcimboldo. Bem, o primeiro contacto não podia deixar de me provocar um prazeroso impacto, uma espécie de divertida e graciosa perplexidade. Mas, por outro lado, a maneirista frivolidade dos seus exercícios aliada a uma histérica profusão pletórica rapidamente me cansaram e deles rapidamente me desinteressei.
Ontem, porém, aconteceu-me uma coisa estranha. Vinha eu do mercado de Torres Novas carregado que nem um burro de sacos e saquinhos com batatas, cenouras, cebolas, nabiças, massa de pimentão e não sei quantas frutas diferentes, quando, de repente, eu próprio me senti uma figura de Arcimboldo. Não sei explicar. Não foi, credo, sentir-me fisicamente arcimboldesco. Antes me confundissem com o engenheiro Mira Amaral. Merda, é nestas situações que eu gostaria de conseguir escrever melhor para exprimir o que sinto.
Ora bem, o meu arcimboldismo não foi pelo meu exterior. Não senti que tivesse uma cenoura e duas cebolas em vez de um nariz e duas orelhas. Não é isso. Foi, digamos, e juro que tenho a consciência do quão pedante é o que vou dizer, uma espécie de arcimboldismo ontológico. Pior ainda: um movimento espontâneo da minha consciência que me ligou, subjectiva e empaticamente, à essência dos produtos que ali levava, à essência da sua origem e à essência das mulheres que mos venderam. Em suma, uma parvoíce pegada mas também é verdade que nem sempre somos donos dos nossos pensamentos e sentimentos, o que, neste caso, faz de mim inimputável e merecedor de intelectual misericórdia. Sei que foi uma espécie de epifania que me fez lembrar a relação de Heidegger com as botas do Van Gogh. Não que ele alguma vez as tenha calçado para calcorrear a Floresta Negra e sentir-se mais seguro por caminhos que não levam a parte alguma, mas porque escreveu sobre elas em A Origem da Obra de Arte e acabei por me lembrar do que ele escreveu que, diga-se de passagem, sempre há-de ser mais interessante do que o Guião para a Reforma do Estado.
Uma tela de Van Gogh é uma coisa. Sim, coisa, coisa mesmo. Como coisa será uma caneta, um pente, uma gaveta ou um picador de gelo. Podemos levar uma tela debaixo de um braço e um micro-ondas debaixo do outro e guardá-los lado a lado numa despensa.  Mas a tela de Van Gogh onde surgem as botas, sendo uma coisa, é uma coisa onde se revela, não o que é um par de botas, mas a essência das próprias botas do camponês, a sua verdade, que passa pela fadiga do seu trabalho, o solo que pisa, os seus sentimentos perante a vida e a morte ou a sua angústia perante o sorriso maternal de Assunção Cristas.
Também o molho de nabiças, as batatas ou as laranjas, são acima de tudo,  nabiças, batatas ou laranjas independentemente de estarem à venda num hipermercado ou na banca de uma velhota no mercado de Torres Novas, podendo todos eles ficarem lado a lado como produtos hortícolas ou frutícolas. Em suma, coisas. Mas ontem dei por mim a ter uma consciência mais aguda do que é comprar num mercado às velhotas que apanham as nabiças, que recebo das suas mãos rijas e agrestes e que sorriem para mim com o seus rostos macerados pelo sol e pelo frio, e comprar nessa asséptica redoma que é um hipermercado, tão iluminado como uma geométrica fisionomia urbana do século XVIII.
O meu estado de alma não teve que ver com a qualidade dos produtos. Aliás, emergiu do fundo do meu ser muito antes de ter feito a sopa de nabiças que, modéstia à parte, ficou deliciosa. Foi por me sentir fisicamente ligado a uma cadeia da qual eu fui o elo final, no fundo, a sua causa final. A velhota semeou, cuidou, regou, lavou para mais tarde se levantar de madrugada para horas depois eu chegar ao mercado e comprar-lhe o molho de nabiças. No hipermercado, coisa entre coisas, nunca consegui sentir isso. Vindo do mercado, pelo contrário, percebi não só o sentido de tudo como também ser protagonista desse sentido e submergido nesse sentido, sei lá, uma espécie de panteísmo hortícola e frutícola que me faz sentir por dentro o que as figuras parvas de Arcimboldo são por fora. O que também não deixa de ser uma parvoíce. Mas, insisto, considero-me inimputável e, acima de tudo, a sopa assim sabe bem melhor.