27 novembro, 2013

ARQUELAU

Robert Frank

Freud pensava, e bem, que saber crescer implica saber gerir a relação entre o princípio do prazer e o princípio da realidade. Gestão, como sabemos, bem mais difícil numa criança, por estar demasiado centrada num puro prazer sem obstáculos, frustrações, esforço ou conflitos.
Ora, esta criatura pode ser um filho da puta da pior espécie. Mas isso não lhe retira um carácter infantil. Não no sentido de o transformar numa criatura angélica e pueril mas no sentido em que encara a vida como uma criança que avidamente desembrulha todos os brinquedos que havia pedido, numa incontinente lista, ao pai natal.
O tipo de brinquedos que aprecia e o modo ostensivamente criticável como os acumula, fizeram dele, inequivocamente, um criminoso, sendo, por isso, procurado pela polícia para ser julgado. O mundo do crime e do bas fond não é, todavia, o único onde podemos dar com esse espírito infantil. Nesse, os criminosos estão identificados e andam fugidos para não serem apanhados. Acabam assim por revelar alguma honestidade e respeito pela sociedade uma vez que não escondem o que andam por cá a fazer. Muito diferentes são todos aqueles que, de um modo legal, limpo, à luz do dia, revelam exactamente o mesmo espírito, pairando descaradamente sobre o prejuízo e sofrimento que provocam nos outros.
Naquele que será talvez o mais pungente e ácido de todos os diálogos de Platão, chamado Górgias, vamos dar com um diálogo entre Sócrates e Polo onde se discute o seguinte: é preferível ser injusto, tirando partido disso, ou ser vítima de uma injustiça? Polo, enfrentando Sócrates com desprezo, atirando-lhe à cara que os filósofos nada entendem de prazeres e paixões, defende a primeira. Para o sofista, importa que os mais fortes possam concretizar os seus desejos, ainda que à custa dos mais fracos. E dá como exemplo Arquelau, um rei da Macedónia que, para satisfazer o seu desejo de poder e de riqueza, fez montes de patifarias. Eis, para Polo, o melhor exemplo de uma vida feliz. A tese de Platão é muito clara: nunca os mais fortes deverão satisfazer os seus insaciáveis desejos à custa dos mais fracos. Ainda que seja possível fazê-lo, ou seja, de um modo legal.
A discussão sobre o que é uma sociedade justa é infinita. Platão, discute-a, o século XX discute-a. Não, como faz o direito, no plano da legalidade, mas no da moralidade. E uma das questões mais prementes ligadas à justiça é, sem dúvida, a da redistribuição da riqueza.  A figura de Arquelau deverá, neste contexto, continuar a ser problematizada. Saber, por exemplo, qual a quantidade de poder que os Arquelaus deste mundo poderão legitimamente ter. Questionar a linha, tantas vezes ténue, que separa a liberdade individual a que temos direito, dos abusos que resultam dela, criando assimétricos desequilíbrios na geometria social.
Dizia Keynes que defender o capitalismo é acreditar, estupidamente, que o mais perverso dos homens fará as mais perversas coisas para...benefício de todos. Confesso que vejo perversidade a mais nesta leitura. Não há Estado Social sem dinheiro e gosto da ideia de haver capitalistas a fazerem dinheiro que será depois redistribuído ou que ponha a economia a mexer. Mas uma coisa é certa: convém estar atento ao poder perverso dos Arquelaus que nos controlam, fazendo com que a sua incontrolada avidez ponha em causa a justiça que torna toda a gente digna de viver uma vida que mereça a pena ser vivida.