12 novembro, 2013

A GAIA CIÊNCIA

André Kertész

Várias coisas chamaram a minha atenção na entrevista de Maria Filomena Molder na Pública de domingo. Uma delas foi ter dito que é preciso acabar com a «treta da interactividade» na relação professor-aluno. Um «logro», «feitiçaria de quarta qualidade», afirma. Disse-o ao falar de alguns grandes mestres que teve como professores, perante os quais qualquer aluno que se preze em aprender, deve estar em silêncio a ouvir. A lógica, no fundo é muito simples: ouvir, ouvir, ouvir. Aprender, aprender, aprender. Depois, se for capaz de ter dúvidas, então perguntar. Mas o grande objectivo do aluno é apenas «tentar não soçobrar». 
Concordo absolutamente com ela e registo com agrado eu ter tido professores cujo único objectivo era fazer com que os ouvíssemos sem nada termos para dizer, professores que incentivavam o prazer do silêncio pelo prazer de estar a ouvir e a aprender. A minha questão é a seguinte: o que leva tantos professores a adorar ver os dedos dos alunos permanentemente levantados, esperando intervir, como se isso fosse o principal sintoma de uma aula produtiva? 
Creio que haverá duas fortes razões. Uma delas, de natureza ideológica, passa por uma auto-rejeição da autoridade científica ou cultural do professor. Ou então, tendo o professor consciência dessa autoridade, haverá, ainda por razões ideológicas e de moda pedagógica, um certo pudor em exercê-la, estando associada a uma humildade que nada tem que ver com uma humildade de natureza meramente pessoal. Porém, enquanto uma humildade pessoal será sempre saudável, uma humildade docente será nociva para o aluno que deseja verdadeiramente aprender. O verdadeiro aluno é aquele que se cala para aprender com quem sabe mais. O aluno que pretende sobrepor o seu discurso ao do professor, ou que quer transformar os dois discursos em linhas paralelas que, negando a hierarquia, seguem lado a lado, não é um verdadeiro aluno mas apenas alguém que deseja começar a ensinar sem ter verdadeiramente aprendido.
E para negar isto não vale a pena lembrar figura de Sócrates com o seu humilíssimo «Só sei que nada sei» A ironia socrática não passa de um processo docente que visa destruir a falsa sabedoria do aluno. Sócrates questiona o seu interlocutor, não para aprender com ele mas para destruir o que ele sabe para poder vir a saber mais e melhor.
O que pode também estar a acontecer é haver professores que gostam de ouvir os alunos porque, para além do óbvio, nada têm para ensinar ou que perderam o prazer de ensinar. Neste sentido, a interactividade, ver fedelhos ignorantes a levantar o dedo para dar azo à sua incontinência, será uma forma de dar uma dinâmica criativiadade à aula, que o professor, sem sabedoria, verá com alegre bonomia e apaziguada consciência docente.