19 outubro, 2013

WHAT HAVE THEY DONE TO DESERVE THAT?

Herbert List | Caracas (1957)

Há cada vez mais alunos a quem dou 10 ou 11, os quais, noutros tempos, não passariam do 8. Isto mostra até que ponto se baixou a fasquia da exigência. Actualmente, para conseguir ter um 10 ou um 11, um aluno não precisa de se esforçar ou saber tanto como um outro de há 20 anos. Parece simpático mas não deixa de ser dramático por razões que não importa aqui explorar.
Mas isto leva a pensar num outro drama. E bem pior pois remete para um possível cenário de injustiça, dimensão à qual sou bastante sensível. Pensar nos alunos que em tempos chumbaram com 8 ou 9 e que hoje passariam calmamente com 10, 11 ou 12. Não me esqueço de uma aluna a chorar junto à minha secretária no fim da aula, depois de saber que eu lhe iria dar negativa, dizendo-me que precisava do 11º ano para concorrer a um emprego. Hoje, esta aluna teria um 11 ou um 12 e terminaria o ano lectivo sem lágrimas e suspiros. 
Mas haverá mesmo alguma injustiça nisto? À partida, sim. De facto, sente-se o cheiro da injustiça quando alunos indigentes ou irresponsáveis tiram melhores notas do que alunos que sabiam e esforçavam mais. Porém, apesar de parecer dramático, duvido que seja injusto. Se é verdade que toda a injustiça será dramática, nem tudo o que é dramático tem que ser injusto. Haveria injustiça se todos os alunos em questão estivessem sujeitos às mesmas condições e jogando com as mesmas regras. Acontece que o espaço e o tempo modificam a nossa percepção do bem e do mal, do justo e do injusto, em função das condições e das regras que condicionam as nossas expectativas e juízos. Foi justo eu ter chumbado os meus antigos alunos? Sim, uma vez que o fiz baseando-me nas regras de então. É justo passar os alunos actualmente? Embora dramático, é também justo pois o actual quadro de referências faz com que isso aconteça. Pensar em injustiça resulta, não das condições objectivas e factuais mediante as quais os alunos foram avaliados, mas apenas de uma alteração dessas regras que veio condicionar a nossa percepção dos factos. Ora, uma possível injustiça só faz sentido se estivermos a comparar situações idênticas sob condições idênticas. Se não for esse o caso, estamos a comparar o que não é comparável. Se no futebol acabasse agora a regra do fora de jogo, iríamos dizer que foram injustos todos os golos que, no passado, foram anulados por causa dessa regra?
Imaginemos que existia mesmo uma personagem como o Orlando de Virginia Woolf, alguém que atravessa os séculos como nós atravessamos décadas. Como iria uma pessoa assim olhar para a história? Ao contrário de nós, que vivemos pouco tempo, e por isso acabamos por ficar auto-centrados no nosso pequeno círculo temporal, projectando no passado os nossos quadros mentais, Orlando vai viajando por vários círculos concêntricos dos quais consegue ter uma percepção tanto global como parcial. Global, porque passou por todos eles; parcial, porque obrigado a viver dentro de cada um deles.
Enfim, onde pretendo eu chegar com toda esta conversa? À ideia de que nunca será possível alcançar uma justiça absoluta que abrigue debaixo de si todos os seres humanos de todos os tempos e lugares. Que muito provavelmente não existe uma ideia, em sentido platónico, de justiça, contrariamente ao que se passa com a ideia de triângulo, número ou múltiplo. Ou melhor, poderá haver, mas a sua definição será tão formal que permite diferentes versões empíricas, ao contrário do que se passa com a matemática e a geometria, essas sim, intrinsecamente formais.
Repito. Pode ser dramático se pensarmos nos que sofreram só porque tiveram o azar de nascer demasiado cedo. O cemitério da história está cheio de pessoas assim, nós próprios iremos pertencer ao clube, ainda que seja demasiado cedo para saber porquê, uma vez que não podemos saber o que ainda não existe mas apenas o que é ou o que foi. Mas a história é também um laboratório no qual, por tentativa e erro, vamos sempre perseguindo um ideal de justiça como um burro persegue a cenoura pendurada à frente dos olhos. Construindo e destruindo, fazendo e desfazendo, recuperando ideias mortas e dando à luz outras novas, errando e corrigindo para voltar de novo a errar e a corrigir. E enquanto assim for, a história irá ter sempre as suas pequenas vitórias, as suas pequenas alegrias.