06 outubro, 2013

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Nikolai Bakharev

Eu sou homem de esmerada educação e cuja boca parcamente resvala na tentação da fácil asneira. Porém, as contingências da vida fizeram com que ontem me sentisse obrigado a repensar a minha identidade.
Depois de fazer as minhas compras no mercado, passei pela loja de um rapaz amigo para o presentear com um bolo que deveras aprecia. Vendo-me com um farto arsenal agrícola, resolvi arrumar tudo dentro de sacos, dentro de sacos, dentro de sacos, como bonequinhas russas transformadas em sacos de plástico. Pego num deles e pouso-o em cima do balcão para procurar o desejado bolo. Eis senão quando, ao vasculhar o comestível troféu entre sacos e saquinhos repletos de pêras, tomates, queijos frescos, uvas, passas de figo, pão, bolos de cabeça e arripiados, estatela-se no chão um dos dois frascos com massa de pimentão artesanal que comprara minutos antes. 
A violência do embate foi tal que ficou massa de pimentão espalhada desde o balcão até à porta da loja, como distópica passadeira vermelha: oleosa, gordurosa, viscosa que, para além de macular desgraçadamente o chão, logo odoriferou com áspera ostentação aquele espaço comercial que, apesar de muito longe de uma alva pureza celeste, tem legitimamente direito à sua dignidade. 
Perante tão descalabroso espectáculo o meu cérebro apenas foi capaz de verbalizar um pensamento: "Foda-se!" Certamente a parte mais reptiliana do meu cérebro, pois, não tendo chegado o primeiro desabafo para exorcizar a minha raiva, do meu complexo sistema fonador que, graças a uma complexa relação entre dentes, palato duro e palato mole, nariz, cordas vocais, lábios, laringe e mais sei lá o quê, me permite formular uma complexa conjugação de sons, só saía repetida e mecanicamente: "Foda-se, foda-se, foda-se, foda-se!" E mesmo após algum silêncio no qual tentava ainda invocar a minha razão para entender o que tinha acontecido, volto de novo à carga com mais um "Foda-se!". A minha vernácula eloquência deve ter sido tal  ordem, que o meu amigo, principal lesado com a desastrosa consequência da minha inépcia motora, já só era capaz de rir. Pois, ele ria e eu dizia "foda-se", eu dizia "foda-se" e ele ria, numa incontrolada espiral em que quanto mais eu dizia "foda-se" mais ele tinha vontade de rir e em que quanto mais ele ria mais eu tinha vontade de dizer "foda-se". Em suma, devo ter dito mais vezes "foda-se" naquele insignificante naco de tempo do que no resto do ano.
O que mais acaba por me interpelar neste dramático episódio é uma espécie de inquietação antropológica: como é possível, em dois minutos, regredir para uma escala primata como se de repente o astronauta de Kubrick se transformasse no macaco de Kubrick? Que raio de ser humano era aquele que perante aquele enodado chão apenas conseguia vociferar três singelas sílabas, menos ainda do que seriam capazes de dizer Adão e Eva minutos depois de emergirem antropologicamente do barro? Humano, sim, na aparência. Na essência nada mais do que um animal.
Uma das coisas que fascinam os cientistas, e não apenas os ornitólogos, é o complexo sistema de comunicação das aves. Que vergonha seria nesta fatídica manhã ter ali um ornitólogo ao meu lado com um gravador ligado para depois analisar cientificamente o meu fraseado mal chegasse ao seu laboratório. Carregar no botão e ouvir "foda-se", "foda-se", "foda-se"_____________"foda-se"____________"foda-se"______"foda-se!"Traduzido musicalmente seria como substituir a música do Messiaen ou os canoros floreados de Vivaldi por uns primitivos batuques africanos.
Não sei, não percebo nada dessas coisas, se a evolução humana resulta de uma evolução da linguagem, se é a evolução da linguagem que resulta da evolução humana. Seja lá como for, andam as duas catitamente de braço dado. Ontem, definitivamente, senti-me duplamente maneta. Felizmente não devo estar sozinho.