05 outubro, 2013

SUCATA DE OUTONO

Blanc et Demilly | Le Lèche Vitrine, 1950

Volto ao que me trouxe aqui ontem para fazer render um pouco mais a promiscuidade, no meu cérebro, entre o que é uma  outonal floresta naturalmente bela e uma floresta bela mas cuja beleza não é apenas artificial mas artificialmente maligna e sinistra. São, por isso, duas coisas. Começo pelo artificialismo.
Falar de artificialismo a respeito de beleza quase implica falar de kitsch, uma velha obsessão minha como se pode ver aqui, ou aqui, ou aqui. Mas seria demasiado tortuoso considerar kitsch a beleza daquela floresta queimada, até porque o kitsch é uma criação humana e a floresta não foi queimada para provocar um efeito estético semelhante ao de uma floresta no Outono. É verdade que os meus sensores do bom gosto rapidamente fizeram soar o alarme para que eu não caísse na ratoeira. E admito que sejam esses mesmos sensores que gosto de ter activos para não ser traído pelos ardilosos poderes encantatórios do kitsch. Porém, por muito artificial que seja aquela beleza, ainda que imitando na perfeição a outonal beleza original, o que me provocou desconforto nada tem que ver com a ambição kitsch de fazer confundir o verdadeiramente belo com o que é aparentemente belo e que joga com elementos do verdadeiramente belo.
O que me provocou desconforto pode ser qualquer coisa que remete para o conceito de aura tal como é explorado por Benjamin no seu famoso A Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica. O mesmo desconforto que sinto perante um pintura falsificada ainda que imite na perfeição o original. Os meus olhos vêem exactamente o mesmo em ambos os quadros, mas a consciência de um ser verdadeiro e o outro falso altera por completo a minha relação com eles. No meu caso presente foi também isso que se passou. Eu vi uma floresta outonal mas a minha consciência de imediato me disse não se tratar de uma floresta outonal mas uma floresta queimada. E a consciência sobrepôs-se à ingenuidade do olhar.
Por outro lado, a sua sinistra beleza ofereceu-me uma sugestão simbólica. Falo agora na qualidade sinistra e maligna da beleza. Na Crítica da Faculdade de Julgar, Kant apresenta o belo como símbolo da moralidade do mesmo modo que um organismo vivo pode ser símbolo de um estado democrático e uma máquina símbolo de um estado ditatorial. Rapidamente percebi que a minha sedução pela beleza de uma floresta queimada pode traduzir metaforicamente a sedução perante todo o tipo de beleza que seja usada para esconder ou dissimular uma qualquer falsidade ou corrupção, seja material, moral ou psicológica. Uma beleza que, aproveitando-se da imediata e ingénua adesão dos olhos ou dos ouvidos, ofusque igualmente as vulneráveis consciências. Tal como acontece no Canto XII da Odisseia a respeito das demoníacas Sereias.
Eis o aviso de Circe a Ulisses: 

Às Sereias chegarás em primeiro lugar, que todos
os homens enfeitiçam, que delas se aproximam.
Quem delas se acercar, insciente, e a voz ouvir das Sereias,
ao lado desse homem nunca a mulher e os filhos
estarão para se regozijarem com o seu regresso;
mas as Sereias o enfeitiçam com seu límpido canto,
sentadas num prado, e à sua volta estão amontoadas
ossadas de homens decompostos e suas peles marescentes. (vv. 39-46)

Mais tarde, dirão as próprias Sereias, com suas vozes hipnóticas:

Vem até nós, famoso Ulisses, glória maior dos Aqueus!
Pára a nau, para que nos possas ouvir! Pois nunca
por nós passou nenhum homem na sua escura nau
que não ouvisse primeiro o doce canto das nossas bocas; (vv. 184-187)

Os tempos são outros, eu não vinha de barco desde Tróia a caminho de Ítaca mas de carro a caminho de Coimbra, o que é muito mais prosaico. Logo aqui se esvai a poesia toda pelo ralo da vida moderna. Mas por muito modernos que possamos ser, feitiços, sejam bíblicos, gregos ou romanos, permanecem aí, imortais, para nos seduzirem através da beleza sem que nos apercebamos dos males que se escondem, no caso desta floresta, por detrás de um melífluo amarelo outonal. Ver destroços onde existe sedução é um dom antigo e sempre presente nos clássicos para nos refrescar a cara com água gelada. Os símbolos podem mudar, seja uma sereia, seja uma floresta queimada. A realidade, essa, nunca muda.