10 outubro, 2013

O PERIQUITO

Robert Capa

Dei por mim a pensar no que se passaria nas nossas cabeças se soubéssemos que, nas próximas 24 horas, a Terra iria ser destruída devido a uma colisão com um asteróide?
Reparem, não é Lisboa a ser destruída por um terramoto, Veneza a ser submergida pelo mar, uma catástrofe epidémica que mate milhares ou até milhões de pessoas como a medieval peste negra, mais um animal que foi extinto ou uma floresta inteira que ardeu. Não, nada disso. Milhões de vezes pior: seria a Terra toda, toda a vida existente no nosso azulíssimo planeta e tudo o que a humanidade produziu até hoje, a desaparecer totalmente como um balão acabado de rebentar. Boooom! Tudo pelo ar e a evaporar-se rapidamente na gélida escuridão do espaço cósmico. Tudinho mesmo: civilizações que demoraram séculos a construir, as mais belas cidades do mundo, imponentes monumentos, jardins sumptuosos, toda as obras artísticas criadas pela humanidade, bibliotecas, museus, enfim, tudo, mas mesmo tudo.
Durante a Guerra Fria, nos anos 80, a Alemanha Federal produziu vários micro-filmes, guardados em lugar seguro, que continham todo o património cultural do país que, deste modo, poderia vir a ser conhecido por futuras gerações que sobreviveriam a uma guerra nuclear. Mas se a Terra desaparecesse amanhã, nem isso haveria. Desapareceriam as Meninas de Velasquez e as Suites de Bach mas também os micro-filmes que conteriam as Meninas de Velasquez e as Suites de Bach, assim como todas as formas de vida inteligente na Terra que pudessem vir a ver ou a ouvir um dia as Meninas de Velasquez e as Suites de Bach.
Significa isto, convém não esquecer, que iriam morrer todos os seres humanos que existem, respiram, vivem, pensam, trabalham, amam, sonham, têm projectos de vida e que quase por milagre ou sortilégios vários, foram trazidos do nada para o ser. Claro que ficamos impressionados quando morrem dezenas de espanhóis num acidente ferroviário, centenas de náufragos africanos às portas de Itália ou mil e tal americanos devido a um atentado terrorista em duas torres.
Mas se o mundo fosse acabar amanhã, a própria humanidade como um todo tornar-se-ia coisa vaga e distante. Queríamos lá nós saber da humanidade para alguma coisa, dos milhões e milhões e milhões de rostos, almas e corações que reflectem, em cada ser humano individual, toda a humanidade. Dos que existem e dos que viriam a existir no caso desta coisa não rebentar com o asteróide. E queríamos lá nós saber das pirâmides do Egipto, do centro de Florença ou de Praga, de todo o recheio do Louvre, do Prado ou da National Gallery, dos violinos feitos à mão pelo próprio Stradivari, da 1ºedição da Divina Comédia, mais a floresta da Amazónia, coitadinha, os Himalaias, para já não falar das baleias em vias de extinção.
Perante todo este cenário apocalíptico e escatológico, cada pessoa, cada eu, iria, sim, pensar na sua morte, na sua tragédia pessoal, no quão dramático, doloroso e ingrato é interromper o seu percurso de vida de um modo assim tão abrupto e imprevisível. A sua morte e, vá, daqueles que lhe são mais próximos e queridos. E se não houver mais próximos do género humano, será o cão, o gato ou o periquito. Não tenho a menor dúvida. No meio de todo esse aflitivo apogeu infernal, o nosso periquito de estimação é maior do que toda a humanidade.