01 outubro, 2013

O FOGO E AS CINZAS

Arthur Tress | Office Workers Returning Home, NY, 1966

A vitória do jornalismo sobre a literatura parece decorrer de uma maior valorização da realidade e do mundo tal como ele é, em detrimento de universos ficcionais saídos da imaginação de um escritor. O jornalista será assim visto como uma espécie de teólogo da realidade suprema, da verdadeira e única realidade, aquele que conhece os seus mecanismos, que sabe discorrer sobre ela, que a sabe na ponta da língua uma vez que anda de gatas atrás dela, em busca dos seus mais ínfimos vestígios, da vida política, social e económica de um país a acidentes rodoviários ou crimes de sangue. O escritor, pelo contrário, não passa de um visionário que tanto pode fazer divertir como fazer pensar, mas cujo efeito é meramente evasivo, artificial, uma lúdica sombra da verdadeira realidade por muito engenhosa e criativa que possa ser. Mas será mesmo assim? Até que ponto as pessoas que vão surgindo num jornal à medida que se vai folheando serão mais reais do que Hamlet, Macbeth ou Próspero?  Até que ponto os franceses e russos que combateram em Austerlitz ou Borodino são mais reais do que as personagens de Tolstoi? Mais: até que ponto a realidade é mais real do que uma posterior ficção que se constrói a partir dessa realidade? À primeira vista parece que o resultado é Realidade-1 Ficção-0, e o golo da vitória nem precisa de surgir nos descontos. Parece tudo demasiado óbvio. Mas será mesmo assim?
Antes de mais, convém lembrar que tudo o que verdadeiramente existiu, existe e existirá no espaço e no tempo é absolutamente contingente. Se os pais de Hitler não se tivessem conhecido ou se o pequeno Adolfo não tivesse sido salvo de morrer afogado quando era criança, a história do século XX teria sido diferente. A actual e verdadeiramente real vida política portuguesa é feita de personagens que existem mas que poderiam não ter existido, e quem diz isso diz o acidente de automóvel que mata uma família inteira. Histórias registadas diariamente pelos jornais e que, como dizia Gide, no dia seguinte já se tornaram demasiado velhas. A realidade é como o leite, está fresca hoje mas rapidamente azeda para se deitar fora.
A literatura, por sua vez, é feita de personagens e de histórias que se cristalizaram, que se tornaram imutáveis arquétipos e que, ao contrário das pessoas empíricas, surgiram da cabeça de um escritor como deus criador de mundos. Quando os pais de Hitler fornicaram, tendo dado vida a um pequeno austríaco, não tiveram a intenção de criar um dirigente político, um militar ou o autor de um livro chamado Mein Kampf. Limitaram-se a fazer uma criança, ponto. Mas Hamlet, Macbeth ou Próspero já são personagens saídas da imaginação de um escritor que quis criar Hamlet, Macbeth ou Próspero. O escritor criou-as como deus cria o mundo, sabendo muito bem o que queria criar e para quê. 
Por outro lado ainda, a vida considerada real é feita de pessoas que mais cedo ou mais tarde desaparecerão na escuridão do tempo.  Quando os meus filhos ou netos morrerem desaparecerão as últimas pessoas a terem memória da minha existência e serei então mais um a morrer para todo o sempre.  Pessoas de todos os tipos e feitios foram, são e serão definitivamente apagadas do espaço e do tempo. Inteligentes e estúpidos, ricos e pobres, astutos, ciumentos, corajosos, ambiciosos, loucos, fanfarrões, traidores, enfim, amantes que amaram perdida e fervorosamente.
Mas Romeu e Julieta sobreviveram às hecatombes do tempo. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Carlos e Maria Eduarda, Teresa e Simão Botelho. Mas também Ulisses, Príamo, Antígona, Pantagruel, Orlando, tanto o furioso como o de Virginia Woolf, Ofélia, Quixote ou a pastora Marcela, Tristam Shandy, Julien Sorel, Raskolnikov, Pierre Bezukhov, a pequena Cosette, Aschenbach, Joseph K, Emma Bovary, D. Juan ou Svejk, aí estão todos eles, vivinhos, despertos, sempre disponíveis para falar e agir, eternamente ressuscitados.
Ler um romance, com as suas imortais personagens, é penetrar em palcos nos quais se condensa todas as formas de vida possíveis, um palco onde se descobre o pensamento de deus antes de existir tudo o que é possível existir mas que tanto pode existir como não existir, um pensamento omnisciente e omnipotente, onde acontece eternamente tudo o que acontece provisoriamente, como o fogo de Heraclito, eternamente aceso para quem o quiser ver, ao contrário dos jornais cujo destino acaba no lixo todas as 24 horas.