09 outubro, 2013

MARXISMO SEM LENINISMO

Annie Leibovitz | William Burroughs

Um partido político lembrar-se de me convidar para fazer parte das suas listas tem tanto de insólito como de hilariante. Mas se em vez de um, forem dois, ainda por cima bastante diferentes, isso já é entrar numa parte da realidade que deixaria o próprio Lewis Carroll com a cabeça a andar à roda. Foi, todavia, o que me aconteceu, aumentando ainda mais o meu cepticismo face à distribuição do bom senso pela humanidade.
Perante a  ignominiosa falta de senso que é lembrarem-se de convidar uma pessoa assim como eu para um affaire político, fui obrigado a dilatar a minha veia marxista: jamais aceitar fazer parte de um partido que tenha o desvario de me aceitar. Porém, apesar da recusa, não pude deixar de pensar no papel que um céptico e pobre solitário como eu pode ou deve ocupar na sociedade que é a sua.
Eu sou um bicho doméstico e é bicho doméstico que gosto de ser. Mas até que ponto não deverei exercer um dever de cidadania, sentindo orgulho por poder dar o meu contributo para ajudar a organizar a vida de todos? Dito de outro modo: até que ponto, enquanto cidadão, o meu contributo político, mais do que uma opção não será uma obrigação moral? Dediquei o meu tempo a tão complexo problema enquanto passava a ferro, concluindo finalmente que não, não tenho qualquer obrigação moral de ser politicamente activo. 
Não é por serem precisos médicos ou padeiros que nos devemos sentir na obrigação de sermos médicos ou padeiros. Eu escolhi ser professor e não posso sentir-me culpado por não ser capaz de curar uma peritonite ou de fazer pão. E quem diz isso, diz também advogado, engenheiro, gestor de empresas ou vendedor de automóveis. Claro que um professor pode ter jeito para ter um café ou um restaurante como segunda actividade. Ou ter jeito para ser politicamente activo, como poderá ter igualmente jeito para ser politicamente activo o advogado, o engenheiro, o gestor de empresas, o vendedor de automóveis, o médico ou o padeiro.
O facto de a actividade política ser transversal, generalista e não carecer de uma especialização cria a ilusão de estar ao alcance de todos, agindo-se mais por instinto, experiência e senso comum do que por competências técnicas ou pessoais. Mas não é bem assim. Fazer política é uma actividade para a qual será preciso, como em qualquer outra, ter um perfil, uma predisposição, uma capacidade e ninguém deve sentir-se culpado ou inferior por não a ter. 
Embora admitindo ser cada vez mais difícil, eu tento respeitar as pessoas que exercem cargos políticos. Mas o facto de as respeitar não implica acreditar que iria respeitar-me a mim mesmo se quisesse o infortúnio e a displicência que eu viesse a exercê-los. Eu gosto de política, interesso-me por ela, tenho um béguin pela filosofia política. Mas jamais seria capaz de a exercer ou de me comprometer com quem que a exerce. 
Sou um bicho doméstico mas saio todos os dias de casa para dar aulas. Há quem aprenda algumas coisas com o que eu ensino. E isso basta para eu poder morrer com a minha consciência tranquila.