30 outubro, 2013

MANUEL MARIA! NÃO ME BATAS, QUE SOU MÃE DOS TEUS FILHOS!

Richard Avedon (1961)

Por muito ténue ou envergonhado que seja, haverá sempre um sociólogo algures esquecido numa das múltiplas e desarrumadas gavetas do meu ser. Só isso pode explicar o meu mórbido interesse por notícias como esta. Não pelo simples facto de haver um casal desavindo. Dizia Estaline, que também era Zé como eu, que a morte de uma pessoa é uma tragédia mas que a morte de milhões não passa de mera estatística. Daí o sociólogo que há em mim dispensar as birras e os possíveis desvarios psicóticos do cada vez mais famoso mas também cada vez mais ex-glamouroso casal. Claro que o descarado voyeur que também há em mim não pode deixar de se sentir excitado com toda a posterior evolução do processo: quem bate em quem, quem é mais tresloucado, quem bebe mais, os pormenores sórdidos em que entra a primeira mulher, as putativas violações, mais os filhos metidos ao barulho com a vizinhança toda entusiasmada a assistir de borla à opereta da moda.
Mas o sociólogo que há em mim tem a obrigação moral e científica de abafar o voyeur que há em mim, interessando-se, sim, pela essência colectiva do elemento social. E se a parte interessa é apenas como expressão particular de um todo que exige uma tradução estatística e marcada por leis gerais que nos permitem traduzir racionalmente as mais ínfimas partículas dos fenómenos sociais. Ups, tenho a consciência de que o que acabei de escrever é tão profundo que até eu próprio deixei de perceber o que estava a dizer mas fica tão bem que não tenho coragem para apagar.
Por isso vou esquecer o drama pessoal e concentrar-me apenas nos sintomas sociológicos da notícia. Antes de mais, no título. Porquê dizer que Bárbara está separada de Carrilho em vez de Carrilho estar separado de Bárbara ou, como seria mais razoável, que Carrilho e Bárbara estão separados? Parece-me difícil que Bárbara esteja separada de Carrilho sem que isso implique que Carrilho esteja separado de Bárbara. E nem sequer se trata de um caso em que a protagonista eleita tenha o exclusivo do relevo público. Carrilho é uma pessoa publicamente conhecida. Mais: dá-se até o caso de ser colunista semanal do próprio jornal que dá a notícia de que Bárbara está separada. Qual será o insólito critério do título? Isto acontece porque a comunicação social, incluindo a de referência, cria um Grand Guignol cor de rosa que se alimenta dos êxitos e misérias das suas personagens. A separação que conta é a de Bárbara pois, ela sim, faz parte desse teatro, uma vez que foi escolhida para nele representar e entreter as massas acéfalas. Carrilho é uma personagem social mas que representa um papel secundário uma vez que o seu perfil intelectual, apesar da sua elegante e filosófica telegenia, o torna socialmente menos excitante e apetitoso. 
Mas também não consigo deixar de me sentir surpreendido por se invocar o facto de a revista que dá a notícia não explicar os motivos da separação. Explicar? O povo que lê o DN deverá ter a expectativa de que seja explicada publicamente a separação de um casal desavindo? Não devia, mas tem. Pelos vistos, desde que começámos a ser pós-modernos nunca mais conseguimos deixar de o ser, o que me permite concluir que ser pós-moderno deve ser mais interessante do que ser apenas moderno, embora sejam já ambos antigos.
O sociólogo polaco Zygmunt Baumann (fica bem ao sociólogo que há em mim citar sociólogos) disse uma vez que a pós-modernidade começou num programa de televisão em França onde uma mulher confessou perante milhões de espectadores que nunca havia tido um orgasmo porque o marido sofria de ejaculação precoce. A partir daqui fica anulada toda a separação entre o público e o privado, entre o visível e o invisível, o social e o pessoal. É como se vivêssemos num bairro social ou numa aldeia em que sabemos todos das vidas uns dos outros, ouvindo as discussões dos vizinhos, sabendo o que vêem na televisão pelo barulho desta, a que horas saem e chegam a casa, ou da sua vida sexual.
Só que é o próprio país que entretanto se transformou numa aldeia ou bairro social, onde o povo se senta no adro da igreja enquanto vê passar a gente rica lá da terra. Por isso, tal como numa aldeia, a informação passa a ser propriedade de todos, achando todos terem direito a ela. Daí a própria informação institucional se confundir cada vez mais com a conversa informal da padaria, da mercearia, do mini-mercado, da barbearia, onde toda a gente fica saber uns dos outros. Por isso surpreende cada vez menos o jornalismo mais institucional alinhar neste espírito paroquial, insistindo no drama, na emoção, no pormenor sórdido que cria a ilusão de sermos todos vizinhos, habitando o mesmo espaço comunitário.
O pós-modernismo, repito, já é velho. Mas veio mesmo para ficar.