15 outubro, 2013

GRAÇA SEM GRAÇA

Pierre Boulat | Torre Eiffel (1993)

O maestro Miguel Graça Moura, enquanto director da Orquestra Metropolitana de Lisboa, gastou, em proveito pessoal, 720 000 euros que pertenciam à instituição e que era suposto ele gerir em proveito desta. Repito: 720 000 euros. Respiremos fundo antes de começarmos a ler: uma piscina, armações de óculos, charutos, resorts de luxo em várias partes do mundo, aluguer de Porches, restaurantes de luxo, vinhos escandalosamente caros, roupas caras, incluindo um vestido com padrões felinos, viaturas de serviço de luxo com motorista, aluguer de viatura na Tailândia no valor de 1200 euros ou um aluguer de viatura de 1000 euros só para se deslocar de Lisboa ao Porto, as suas despesas domésticas, electrodomésticos e, last but not least, cuecas de fio dental.
Trata-se de um caso patológico. Não pelo seu sentido de gosto e de saber viver. Caramba, quem não gostaria de dispor assim de todo aquele dinheiro para poder usufruir de tanta coisa boa (eu dispensaria as cuecas de fio dental)? Patológico, pela ausência de equilíbrio entre o princípio do prazer e o princípio da realidade, assim como de uma gestão ética e psicológica das expectativas sobre o que consideramos ser uma vida boa. Equilíbrio e gestão que fazem parte da educação básica de qualquer ser humano. Mas apesar da sua dimensão patológica e de excepção, e por isso não relevante, pode-se partir deste caso para fazer alguma pedagogia a respeito da seguinte questão: qual o limite do nosso desejo de riqueza com vista a alcançarmos uma vida boa?
Com o corpo há sempre um limite para o nosso desejo. Por muito que gostemos de comer, beber ou dormir, haverá sempre um momento em que o nosso corpo exige que paremos para não ficarmos doentes e rebentarmos. Há uma sabedoria instintiva no próprio corpo que nos obriga a parar quando passamos um limite. Mesmo com o sexo, cujos excessos, presumo, não estão na origem de doenças ou mortes de pessoas normais, haverá sempre um limite para o desejo, incluindo o Dino de Kiss Me Stupid.
Já quanto às paixões da alma a coisa soa mais fino. O filósofo inglês Thomas Hobbes reflectiu bastante sobre elas e, inspirando-se na mecânica de Galileu, chega à conclusão de que o nosso desejo está eternamente em movimento a não ser que alguma coisa o detenha. Ou seja, enquanto o desejo de comer, de dormir ou de sexo, por muito grandes que sejam, são sempre limitados por um movimento interno que lhes resiste, o desejo de poder ou de riqueza com vista a alcançar a felicidade não cessará. Por que haveria de cessar? Porquê ter um Opel Corsa se posso ter um Mercedes? Porquê comer frango se posso comer faisão? Porquê viver com 20 000 por mês se posso viver com 40 000? Porquê ter quadros de José Guimarães ou de Graça Morais se posso ter Vieira da Silva ou Paula Rego? Porquê conhecer apenas 10 países se posso conhecer 20? E porquê conhecer 20 se posso conhecer 30? E porquê 30 se posso conhecer o mundo inteiro com as minhas malas Louis Vuitton, de hotel de luxo em hotel de luxo? Em suma, porquê parar, se o desejo da alma, ao contrário do desejo do corpo, é contínuo, inesgotável e aparentemente inócuo?
Eis a questão que deve ser colocada por pessoas normais, que não é certamente o caso do nosso maestro: onde deve parar o meu desejo de riqueza? O que preciso mesmo de ter para que possa ser feliz, satisfazendo as minhas verdadeiras necessidades? Qual a linha que separa o que não posso deixar de ter sob pena de ser infeliz do que posso deixar de ter sem que isso me impeça de ser feliz?
Não há, infelizmente (ou se calhar felizmente), um barómetro que permita quantificar o grau ideal de riqueza. Trata-se, porém, de um exercício que qualquer pessoa pode fazer, partindo das suas verdadeiras necessidades e não de necessidades socialmente condicionadas como se fôssemos cães pavlovianos, salivando ao som de campainhas. 
Talvez a resposta passe pela religião, pensando no que pode significar viver sob um estado de graça. Pela diferença entre um estado de graça que procura o céu na terra e um estado de graça que procura a terra no céu. E o que é aqui o céu? O céu é invisível, etéreo, imaterial. Não é, pois, lá que vivemos nem eu pessoalmente tenho qualquer desejo de viver. Nem se trata de uma metáfora para exprimir a ideia de viver do ar e de esmolas como penitentes franciscanos. O céu é o terreno do espírito santo e o espírito santo não é propriedade de nenhuma religião. Eu sou ateu e não preciso da religião para viver. Mas admito que ainda temos muita coisa a aprender com os sentidos que dela vêm para nos pôr a pensar.