25 outubro, 2013

FILOSOFIA DE PARAPEITO

Ignacio de Ries | A Árvore da Vida

A mensagem deste belo quadro, que pode ser encontrado numa das capelas laterais da igualmente bela catedral de Segóvia, não podia ser mais clara. Tão clara que nem vale a pena comentar. Quero apenas assinalar a absoluta descontinuidade espacial e simbólica entre o domínio da morte castigadora e o displicente hedonismo que se vive no cimo da árvore. E o paternal aviso de Cristo ao tocar na sineta não poderia ser também mais revelador, assim como a sua expressão de pânico perante o horror que se espera.
Este dualismo fez-me lembrar, pelo contraste, o igualmente belo, belíssimo, início de Sarrasine. Balzac leva-nos para uma sumptuosa festa num salão de Paris. Estamos no Inverno e neva lá fora. No parapeito de uma janela aberta está um tipo que, de repente, como se fosse bicéfalo, se sente a viver ao mesmo tempo duas realidades completamente distintas, experiência que o leva pensar tratar-se Paris de uma cidade ao mesmo tempo festiva e filosófica. Ok, vamos ler esta passagem? É grande mas acho que vale a pena.


Eu tinha mergulhado numa daquelas profundas meditações que se apoderam de qualquer pessoa, e até de um homem frívolo, no meio das festas mais tumultuosas. Acabava de bater a meia-noite no relógio do Elisée-Bourbon. Sentado no parapeito de uma janela, e escondido entre as pregas ondulantes de um reposteiro de tafetá, podia contemplar à minha vontade o jardim do palacete onde estava passando o serão. As árvores, parcialmente cobertas de neve, destacavam-se debilmente do fundo acinzentado de um céu nublado e um pouco esbranquiçado pela Lua. Vistas no contexto daquela atmosfera fantástica, assemelhavam-se vagamente a uns espectros mal embrulhados nas respectivas mortalhas, eram a imagem gigantesca da famosa dança dos mortos. E, ao virar-me para o outro lado, podia admirar a dança dos vivos!
Era um salão esplêndido, de paredes de prata e ouro, lustros faiscantes, a brilhar de velas. Ali abundavam, quais agitadas borboletas, as mais belas mulheres de Paris, as mais ricas, as de mais altos títulos, resplandecentes, pomposas, deslumbrantes de pedra!...;ostentavam flores na cabeça, no colo, no cabelo, disseminadas pelos vestidos ou em grinaldas a seus pés. Havia leves frémitos de alegria, passos voluptuosos que faziam rodar as rendas, os blondes, a musselina, em torno dos flancos delicados. Aqui e além espreitavam olhares intensamente vivos que eclipsavam as luzes, o fogo dos diamantes, e que ainda mais alentavam certos corações incendiados. Podiam também surpreender-se gestos de cabeça significativos para os amantes e atitudes negativas para os maridos. Os brados dos jogadores a cada jogada imprevista e o retinir do ouro misturavam-se com a música e com o murmúrio das conversas; e, completando a vertigem daquela multidão inebriada por todas as seduções que o mundo pode oferecer, um vapor de perfumes e a embriaguez geral actuavam sobre as imaginações enlouquecidas.
Assim, tinha à minha direita a sombria e silenciosa imagem da morte e, à minha esquerda, as decentes bacanais da vida. Aqui, a natureza fria, taciturna, enlutada; além, os homens entregues à alegria. Eu, colocado na fronteira entre estes dois quadros tão diversos, os quais, mil vezes repetidos de diferentes maneiras, tornam Paris a cidade mais festiva do mundo e a mais filosófica, ia compondo uma salada moral, meio divertida, meio fúnebre. Marcava o compasso com o pé esquerdo e ao mesmo tempo parecia-me ter o outro na sepultura. Com efeito, sentia a perna gelada por um daqueles ventos encanados que nos resfriam metade do corpo enquanto a outra experimenta o calor húmido dos salões - um caso muito frequente nos bailes.

O contraste entre o texto de Balzac e o quadro de Ries não poderia ser mais gritante. Desaparece o dualismo entre os dois planos da árvore, o da copa e o do tronco, do prazer e do castigo, da alegria e da angústia. O nosso filósofo, pelo contrário vive simultaneamente os dois. Ele participa da festa, está lá, bem dentro dela, mas isso não anula a consciência da sua finitude e mortalidade. Pelo contrário, até reforça, em forte contraste com a pueril inconsciência festiva no cimo da árvore. É precisamente a percepção da festa, do seu esplendor, do seu luxo, do inebriamento sensorial que dela advém, que acaba por evidenciar ainda mais a realidade fúnebre sugerida pelo Inverno do qual ninguém lá dentro dá conta. Aquele parapeito não é exterior nem interior mas uma fronteira que, como ele diz, o faz estar ao mesmo tempo com um pé a marcar o compasso e o outro numa sepultura, ao mesmo tempo a ver a dança dos mortos e a dança dos vivos.
No quadro da catedral de Segóvia é Cristo o único a ter essa consciência. O que acontece com esta nossa personagem é precisamente colocar-se no papel de um deus omnisciente mas sem deixar de ser homem. Não é deus mas pensa como um deus, pensa o pensamento de deus sem todavia deixar de assumir a sua condição. Há no quadro a ideia de uma puerilidade humana, oposta por isso à consciência divina. Ser humano é ser frágil, é ser inconsciente, é ser criança inocente, carecendo de uma tutoria divina. No texto de Balzac, pelo contrário, a humanidade atinge, através desta personagem, uma maturidade filosófica. Ser ao mesmo tempo adulto e criança, introspectivo e festivo, vivendo entre a luxuria da festa e a lúgubre nadificação do Inverno. Ele sabe que a morte está aí, mesmo atrás de si, mas isso não o impede de abdicar dos prazeres da vida. Vive o prazer com a consciência da morte, a consciência da morte não lhe rouba o impulso de viver e de usufruir da luz irradiada pela vida. Touché.