08 outubro, 2013

DA DA DA

Elliot Erwitt

Pelas contas de Pacheco Pereira no Público de sábado, cerca de 100.000 itens podem ter sido produzidos durante a recente campanha eleitoral, em outdoors, cartazes, autocolantes, panfletos, brindes. Só na minha terra foi uma galáxia deles. 
O que mais impressiona, para além da entomológica proficuidade, é a íntima relação entre a criatividade humana e a estupidez humana, passe a redundância, pois não conheço estupidez que não seja humana. Enquanto as artes, a filosofia, a ciência, a técnica, são verdadeiramente criativas pelo modo como procuram trazer novos mundos ao mundo, uma campanha eleitoral explora, nos mais recônditos becos da alma humana, uma misteriosa capacidade de criar nada a partir do nada, do pensamento produzir não-pensamento ou usar a inteligência para gerar não-inteligência.
Que a inteligência humana consiga gerar um slogan estúpido, eu compreendo. É como o Messi poder falhar um penalti. O que já me deixa estatelado no tapete e com o entendimento esmurrado é o criativo poder da inteligência para gerar milhares de pensamentos estúpidos. Uma coisa é alguém ser naturalmente estúpido. Outra é as pessoas procurarem criativa e inventivamente a estupidez. Sei lá, sentarem-se à mesa e usar a sua criativa imaginação para produzir mais e mais estupidez.
Dizia Oscar Wilde (não sei porquê, passo a vida a dizer isto) que não é a arte que imita a vida mas a vida que imita a arte. Estas campanhas eleitorais são uma prova provada disso. Neste caso, basta pensar no manifesto de um dos movimentos artísticos do século XX: o dadaísmo. Como grande parte da arte contemporânea, visa pôr a criatividade humana ao serviço da estupidez, ainda que disfarçada de inteligência. Um dos seus arautos, Tristan Tzara, dizia mesmo que o pensamento se faz na boca, defendendo que escrever um poema será assim uma coisa tão complexa como arrotar, espirrar ou assoar. Ora, alguém, porventura, consegue distinguir uma campanha eleitoral desta fórmula dadaísta? É por isso que eu, por oposição, não prescindo dos meus velhinhos clássicos, pensando, neste caso, no que dizia um dos considerados Sete Sábios da Grécia Antiga, Quílon de Esparta: "Que a tua língua não corra à frente do teu pensamento". Escolher entre Tzara e Quílon é assim mais ou menos como escolher entre uma pizza congelada do Lidl e uma trouxa de robalo com mousseline de couve flor e molho Beurre Blanc.
Vamos lá ver. Eu não acho que uma campanha eleitoral deva ser um processo estritamente racional, transformando os comícios numa espécie de congressos de físicos nucleares e a propaganda politica em abstracts de teses de doutoramento. Acho mesmo tonta aquela polémica no século XVI entre ciceronianos e anticiceronianos  que dividia católicos e protestantes, a respeito do que se pedia à retórica. Os primeiros, mais preocupados com a eficácia da retórica, defendiam mais o poder mobilizador da emoção. Os segundos estariam mais centrados num uso ético da retórica e numa busca sincera da verdade. Ora, nem o pobre Cícero merecia que aquela gente andasse à pancada usando o seu nome, nem é verdade que católicos e protestantes pertencessem exclusivamente a um dos campos. Uma retórica eleitoral deve ter uma parte racional mas também catártica ou emocional. Nada contra. O problema é que a balança pende cada vez mais apenas para um dos lados, deixando de fazer sentido a tradicional distinção entre propaganda e publicidade. E vender um candidato já não é bem, como dizia o outro, como vender uma pasta de dentes. Lembra cada vez mais o WC Pato.