04 outubro, 2013

BELO HORRENDO


Deborah Turbeville

Ontem à tarde, passei de carro por uma zona florestal completamente ardida. Ao contrário do que seria de esperar, o impacto inicial daquela paisagem foi surpreendentemente agradável. Atendendo às circunstâncias talvez devesse antes dizer chocantemente agradável ou perversamente agradável. Porém, de agradável passou a estranho e de estranho a inquietante.
De repente, ao ver-me envolvido por todo aquele amarelo flamejante dei por mim a sentir um prazer estético e a ter a ilusão de estar numa zona florestal da Nova Inglaterra ou da Alemanha em pleno esplendor outonal, sentindo assim o que julgo poder sentir, estando na Nova Inglaterra ou na Alemanha no Outono, apreciando a amarelíssima beleza de uma floresta. 
Mas, por outro lado, a área pré-frontal do meu cérebro dizia-me que eu não poderia apreciar aquela paisagem. Que não, não estou na Nova Inglaterra ou na Alemanha mas numa estrada portuguesa onde simplesmente ocorreu mais um daqueles incêndios de Verão que ocupam metade dos telejornais e nos quais jornalistas vão entrevistando bombeiros e pessoas humildes que ainda vão resistindo à desertificação do mundo rural português. Em suma, o meu cérebro rapidamente entrou em curto-circuito, mais parecendo o rabo de uma lagartixa depois de se separar do resto do corpo.
Mas foi esta avaliação que prevaleceu, anulando por completo o prazeroso sentimento anterior. O que me fez pensar no despropósito de uma possível visão utilitarista da beleza, ao contrário do que se passa na moral. Mesmo que não atribuamos valor moral ao facto de um homem se atirar ao rio para salvar uma criança de morrer afogada na esperança de obter uma recompensa monetária dos seus pais ricos, reconhecemos a utilidade do acto. O princípio da acção do homem não é o moralmente mais edificante mas a sua consequência acabar por justificá-lo. Mesmo um não utilitarista o reconhecerá: não se tratou de um acto moral mas de qualquer modo não deixa de estar em conformidade (ainda que aparentemente) com um acto moral. E a criança agradece.
Mas aqui é completamente diferente. Eu poderia dizer: quero lá saber do motivo pelo qual estou a sentir prazer em apreciar o belo amarelo deste pedaço de floresta. Este belo amarelo é igual ao belo amarelo de uma floresta alemã no Outono e não poderei retirar-lhe a sua intrínseca beleza só porque a causa não é o frio do Outono mas as brasas do fogo. E numa prova cega até talvez nem conseguisse distinguir as duas florestas. Mas não consigo fazer esse exercício e, ao contrário do que se passa com a moralidade, rejeito esta prazerosa experiência estética. Porquê? Porque lhe falta autenticidade, espontaneidade, naturalidade, em suma, verdade. Uma experiência estética não se esgota em si mesma. Trata-se de uma experiência sensível mas, ao mesmo tempo, uma experiência sensível que exige um eixo conceptual que lhe confere maior ou menor valor estético. Neste meu caso de ontem, um valor repulsivo que me fez sentir alívio mal abandonei aquela paisagem tão bela. Tão terrivelmente bela.