02 outubro, 2013

A FOTOGRAFIA COMO BELA FILOSOFIA


Tentei ontem vender a ideia de que a ficção literária pode ser mais real do que aquilo que consensualmente aceitamos como sendo a verdadeira realidade, sobretudo pelo modo como essa ficção se torna arquétipo de realidades efémeras, contingentes e múltiplas, dando-lhe uma unidade universal e imutável. Creio que o mesmo se pode passar com a fotografia. E, na minha opinião, de um modo ainda mais interessante.
Vamos lá ver o seguinte. Macbeth, Otelo, Jean Valjean, Julien Sorel ou Emma Bovary podem ser arquétipos, luminosos faróis que nos ajudam a ver por dentro muitas pessoas que conhecemos da nossa vida real. Mas não existem. Ou melhor: precisamente porque não existem. E enquanto criações ficcionais não têm corpo, voz ou rosto. Nem almas chegam a ser. São ideias puras com uma vaga aparência física sugerida por um escritor que as pensou ou imaginou. Só que a imagem da imaginação não é a imagem da visão. A imagem que temos de Pierre Bezukhov não é a mesma imagem que temos de Napoleão, a imagem que temos de Quixote não é a mesma que temos de Carlos V. Napoleão e Carlos V existiram, temos os seus retratos. Pierre ou Quixote, pelo contrário, nunca existiram e quando a nossa consciência os constrói a partir da descrição dos respectivos escritores, não passam de duas ideias disfarçadas de imagens. A literatura cria, pois, personagens puras, ideias vazias que, todavia, surgem como substâncias sensíveis, graças ao material empírico que possuímos previamente antes de os conhecer. Como é que eu imagino Macbeth? Bem, graças à ajuda de algumas pessoas que, infelizmente, tive o desprazer de conhecer. Macbeth é uma ideia pura, vazia mas que ganha substância física graças a uma prévia experiência empírica que eu tenho do mundo.
A fotografia, por sua vez, na sua forma mais directa e simples, é uma arte mimética. A máquina dá-nos, exactamente, a realidade tal como ela é, como acontece aqui com este médico fotografado por W. Eugene Smith em 1948, após a morte de uma mulher e do seu bebé durante o trabalho de parto. Ao contrário das personagens literárias, este médico tem uma realidade empírica, como é empírica a sua profunda tristeza, empírico o motivo dessa tristeza, empírico o país onde tal aconteceu (EUA) e empírico o tempo onde tal aconteceu. Em suma, espacio-temporalmente enquadrado e percepcionado através da nossa sensibilidade (o olho, a visão).
Dito desta maneira parece assim não ser possível defender o que disse inicialmente: a fotografia como arte arquetípica e ideal, tal como a literatura. Se o fizer, pareço cair em contradição com o que disse ontem, ao comparar a ideal realidade literária com a aparente realidade empírica. Acontece porém que tal se torna possível ao congelar ínfimos instantes dessa realidade. A realidade humana é essencialmente movimento. Ora, ao congelar esse movimento, a fotografia acaba por conseguir transformar o movimento natural numa essência ideal. Um processo parecido com o da pintura mais naturalista ou realista, só que ainda mais radical, pois enquanto na pintura existirá sempre uma distância ontológica entre o quadro e a realidade (a realidade não é feita de óleo, havendo sempre uma distância entre o Carlos V de carne e osso em cima do cavalo e o Carlos V em cima do cavalo pintado por Ticiano), a fotografia, por sua vez, reproduz, de um modo absolutamente mimético, a tristeza do médico com a sua chávena de café e cigarro na mão, contemplando o vazio. 
Graças a esta fotografia, este médico deixou de ser um simples médico num momento pós-operatório de um hospital americano em 1948, para se tornar um ícone e um ícone no sentido quase religioso. Vendo bem, grande parte do melhor fotojornalismo consegue esta elevação a um plano eidético. Os factos históricos e contingentes adquirem assim um plano transcendente, tornando a arte fotográfica num território onde, como na literatura, só que de um modo ainda mais paradoxal, pensamento e sensação, ideias e imagens, inteligência e sensibilidade, conseguem uma bela e eloquente combinação. A fotografia não é uma disciplina filosófica. Mas, graças a esse plano ideal, pode surgir como propedêutica filosófica, criando uma ponte entre o entendimento e a sensibilidade. Conceitos sem intuições serão vazios, como dizia Kant. Graças à fotografia esse perigo será certamente  menor.