07 outubro, 2013

7 DA VIDA AIRADA


Eu e S. Agostinho não foi bem amor à primeira vista. Vá, à segunda. Uma das muitas coisas que nele me atraíram foi a rejeição do maniqueísmo. Na altura não me apercebi muito bem disso mas com o tempo foi dando para ver que eu e desvarios maniqueístas é assim como a água e o azeite, passe o maniqueísmo da comparação. Não acredito que o Bem e o Mal existam como princípios opostos, absolutos e irredutíveis.
Eu não gosto de Hitler pois por causa dele sofreram barbaramente muitos milhões de pessoas em todo o mundo. Mas não podemos dizer que o ex-cabo, apesar das tormentas que provocou, seja uma encarnação do Mal. Tinha coisas más, é verdade, mas também outras boas e giras: era um cavalheiro, adorava animais e com medidas concretas em relação aos seus direitos, era melómano, apreciador de pintura e com algum jeito para pintar, não era hipócrita pois não fingia satisfação ao ver raças inferiores a ganhar provas de atletismo, conseguia falar zangado aos gritos sem sofrer uma apoplexia, adorava criancinhas e, tal como eu, era guloso até dizer chega. Tenho a certeza de que iria adorar pastéis de nata e não me custa nada imaginar nós dois todos regalados e divertidos em Berghof a comermos pastéis de nata e apfelstrudel ao som dos Nibelungos, enquanto eu ia lascivamente galando a Eva Brownie, versão bavaroise de um famoso bolinho inimigo.
Também o fascismo português não foi flor que se cheirasse. Mas lá que tinha coisas boas, tinha. O Benfica fartava-se de ganhar campeonatos e o Moriarty lá do norte não passava de um obscuro vendedor de tintas e resinas a dirigir uma secção de boxe. Na altura também não havia ainda as casas dos emigrantes a manchar a paisagem portuguesa pois os emigrantes ainda estavam a emigrar. E não esquecer o facto de haver menos carros a circular pois os pobres, que era quase toda a gente, não os tinham,de as praias estarem mais vazias,de a comida, para quem a tinha, claro, ter o bom e genuíno sabor dos velhos tempos, de não existirem ainda coisas irritantes como a JS ou a JSD e de a Marion dos Pequenos Vagabundos contribuir mais para a maturação cognitiva e hormonal da pequenada de então do que dezenas de bonecas mal amanhadas dos desenhos animados japoneses.
Eu sei lá, era capaz de enumerar dezenas de coisas boas facilmente encontradas no fascismo português (ah, a televisão era a preto e branco o que fazia parecer todos os filmes mais cultos e inteligentes, fazendo de cada português um verdadeiro intelectual ainda que fosse a ver a Costureirinha da Sé), mas no dia de hoje, basta-me pensar que, durante o fascismo, só hoje, dia 7 de Outubro, dois depois de um feriadinho que a democracia nos roubou, as aulas estariam a começar. Enfim, mais uma simpática luz a brilhar na antipática e invernosa longa noite fascista. O mês de Setembro era todo ele férias férias férias e ainda tínhamos uma semana todinha de mentalização para o regresso às aulas. Sinceramente, ainda não consegui perceber para que raio é preciso tanto tempo na escola, se grande parte dos actuais utentes, apesar da dose industrial de disciplinas e suportes tecnológicos, sai de lá a saber menos do que os seus pais e avós que por lá andaram ou a escrever e a ler pouco mais do que aqueles que nunca lá chegaram a andar. 
Irrita-me cada vez mais este modelo social marcado pelo paradigma da produção, da eficácia, do pragmatismo social e cultural, em que tudo tem que ter um objectivo devidamente planificado e justificado, do ter que estar sempre ocupado como um ratinho na sua rodinha com as patinhas a dar a dar, do horror ao vazio pré-institucional. Tendo-se começado quase há um mês, o que se ganhou entretanto com isso? Poder-se-ia começar precisamente neste momento com o que se começou na altura. O que se perde nas nossas vidas, porém, é irrecuperável pois do que não se viveu e poderia ter vivido graças ao ócio das férias, jamais advirá coisa alguma.