09 setembro, 2013

VANITAS DE PLÁSTICO E METAL

Boris Smelov

Fui fazer uma TAC ao nariz. Eu, que tenho uma cabeça um bocadinho cinematográfica, no meio daquela parafernália tecnológica senti-me assim mais ou menos como num filme do Jacques Tati. Só que, em vez de me sentir perplexo, desconfortável, assustado ao ser arrastado para dentro de uma máquina com uma coisa a andar à roda com luzinhas a acender e apagar, senti uma espécie de segurança imortal graças, não a um elixir da longa vida mas a uma tecnologia da vida imortal.
Eu tive uma fase da vida em que fui hipocondríaco. Como assídua leitura de cabeceira, ombreando com os clássicos russos, tinha um daqueles livros assim tipo Reader's Digest que explicam os sintomas de todas as doenças, os tratamentos, o que se deve fazer, o que se deve evitar. Lia aquilo com o meu entusiasmo e devoção com que seguia a perdição de Anna Karenina. Daí, se me perguntarem, ainda hoje saber dissertar sobre inúmeros tipos de doenças, desde a peritonite à candidíase, passando pelo pneumotórax espontâneo ou a diverticulose. Em suma, tinha medo de morrer. Daí a minha sensação de conforto e segurança sempre que entrava numa farmácia. Eu entrava e, olhando para todas aquelas prateleiras e gavetas repletas de cápsulas, comprimidos, xaropes e pomadas, sentia que era o sítio do mundo onde estaria mais seguro. 
Há muitos anos que deixei de ser hipocondríaco. Mas não pude evitar repetir essa sensação de segurança quando, horas depois de uma consulta de otorrinolaringologia na qual literalmente depositei o meu nariz nas mãos do médico para me enfiar um tubo pelas goelas abaixo, me vejo dentro de tão sofisticada máquina. Comecei a pensar, e no meio de todo aquele asséptico silêncio e solidão há tempo para pensar, no privilégio que é viver num tempo em que existem todas estas sofisticadas máquinas graças às quais é possível penetrar nas mais ocultas camadas do nosso corpo, nos mais ínfimos cantos e recantos dos nossos órgãos. Na boa graça que é haver uma máquina com o mesmo mágico e implacável poder dos nossos heróis da banda desenhada de perseguir e combater o mal, cínica e sorrateiramente escondido no nosso corpo para diabolicamente nos tirar a vida.
Mas não passa tudo de uma vã ilusão. Podemos jogar ao gato e ao rato com a morte. Fintá-la, pregar-lhes rasteiras, cuspir-lhe na cara ou rirmo-nos dela porque aqui ou ali lhe ganhámos algum avanço. Mas haja as máquinas mais sofisticadas que houver, anti-milhares de coisas em comprimidos, cápsulas ou xaropes, será sempre ela que ganha no fim. Parecemos o rápido Aquiles de Zenão a querer ultrapassar a lenta e paciente, porém, inultrapassável, tartaruga.
A máquina da TAC pode ser muito sofisticada. Mas não passa de um pedaço de plástico e metal que, mais do que nos proteger, deve fazer lembrar o quanto facilmente nos podemos quebrar.