11 setembro, 2013

UM METRO E SESSENTA E CINCO DE NOSTALGIA

Boris Smelov

Apesar de tantas coisas boas que o século XX trouxe à humanidade, inúmeras vantagens tecnológicas, o milagre dos antibióticos, facilidades de comunicação ou transporte e de tantas e tantas outras coisas, sempre me senti mais um homem do século XIX.
Brinquei com robots e pistas de automóveis em criança, cresci a ver cinema, ouvi Led Zeppelin e Deep Purple na adolescência, fiz campismo selvagem e, mais tarde, gostei da liberdade que os carros me davam para poder viajar e aprendi a valorizar as fraldas descartáveis enquanto criava dois filhos. Não, não sou ingrato e sei reconhecer tudo o que pude fazer e ser porque o século XX mo permitiu.
Mas desde muito cedo que ouvi, como se fosse de uma sereia, uma voz feérica vinda século XIX a chamar-me de volta. Daí a minha sensação de sobrenatural regresso sempre que vejo as casas do século XIX, a ausência de electricidade do século XIX, as paisagens do século XIX ainda não maculadas pelas metástases urbanas do século XX, as roupas do século XIX e as mulheres do século XIX dentro das roupas do século XIX. Sou benfiquista, emociono-me a ver a águia Vitória no seu voo triunfal pelos céus da Catedral, mas se me sinto vitoriano é por razões bem diferentes.
Gosto do século XX mas, ao mesmo tempo, sempre me senti aqui um estrangeiro, um alienado, um exilado do século XIX, padecendo de nostalgia e melancolia pela sua pátria histórica. Sartre, Boris Vian, Sagan, Picasso ou Miles Davis em Paris? Não me me diz nada. Hemingway nos touros em Pamplona, Günter Grass em Berlim a viver o seu século, Henry Miller, Truman Capote, Andy Warhol em NY, Joe Cocker esganiçado e Jimi Hendrix esburacado em Woodstock, Twiggy e Francis Bacon em Londres nada me dizem.
Diz-me, sim, Turgueniev em Baden Baden, Nietzsche agarrado ao cavalo em Turim, Göethe e Bettina von Arnim, E.T.A. Hofmann e Hegel em Berlim, Byron em Sintra, Eça em Lisboa, Camilo no Porto, Alas em Oviedo, Monet em Honfleur, Henry James ou Ruskin em Londres, Hawthorne em Plymouth, Balzac em Paris ou Pierre em Moscovo. Ou já no século XX mas longe ainda do meu século XX, Hammershoi, Holsoe e Ilsted em Copenhaga, Mahler, Freud e Klimt em Viena, Kafka em Praga, Proust em Paris, Virginia Woolf em Londres ou  Hans Castorp em Berghof.
Pronto, toda esta conversa serve para explicar a minha reacção perante esta informação. Ou seja, se a minha alma está no século XIX, pelos vistos, o meu corpo também. Depois de ler isto sinto-me cada vez mais um fantasma perdido no tempo, uma alma penada que, como no Fédon, de Platão, não consegue sair da terra mas também não consegue chegar ao céu. E irei morrer, desconsolado, literalmente desconsolado, no século XXI, como soldado atolado na neve e na lama, longe da sua pátria. De corpo e alma.