04 setembro, 2013

ULISSES NA RESSONÂNCIA MAGNÉTICA

Luchino Visconti | Senso (fotograma)

O romântico que há em mim nutriu sempre um enorme fascínio literário pela traição. Ainda ontem estive a bisbilhotar uma biografia de Claude Debussy na qual cintila a sua relação com Emma Bardac. E nas vezes que entrei na Cadeia da Relação ou na casa de Ceide, nunca pude deixar de tentar perscutar, no meio do silêncio, a conturbada história de Camilo e Ana Plácido. E havendo finais infelizes mais romântico ainda se torna. O músico francês viu morrer a sua filha, Claude-Emma (mistura dos nomes dos pais) que tanta adorava e a quem dedicou o Children's Corner, ainda muito jovem, e de um modo que podia ser evitado. Camilo, no seu retiro provinciano, para além de ver a sua saúde degradar-se a passos largos, foi assistindo, impotente, ao emburrecimento de um dos filhos (expressão do próprio em carta a um amigo) e às estroinices marialvas do outro. 
Sem a traição, a história da literatura, do cinema ou da música teriam sido outras. Mas a arte, se for boa, não anda de gatas atrás das causas. O escritor, o cineasta, o compositor, não são patologistas que dissecam o coração e a alma num laboratório. Não por defeito mas por opção. Há quem diga que a filosofia fica com os restos da ciência. O filósofo, nesta versão, será uma espécie de respigador que fica com os restos que a ciência não consegue apanhar. Isto é uma estupidez. O filósofo não é cientista, não porque não o consegue ser mas porque não o quer ser, procurando o seu próprio terreno para pensar. Com a arte acontece o mesmo. O que faz o escritor com Anna Karenina ou Emma Bovary, ou Louis Malle com Jeremy Irons, em Damage, ou Truffaut com Depardieu em A Mulher do Lado, não é dissecar o coração e a alma. É expô-los, em directo e ao vivo, fluindo no espaço e no tempo de uma narrativa. Para quê? Para nada de especial, apenas para entreter, emocionar, purificar emoções, tal como faziam os gregos quando se sentavam nos degraus de pedra do anfiteatro. Mas valendo o que vale, muito longe de sistemas teóricos ou de rígidas relações entre causas e efeitos, mesmo que as histórias funcionem como ponto de partida para considerações morais e as personagens permitam construir arquétipos que condensem conceitos morais.
Mas o que dizer disto? Isto permite apenas saber que havia uma forte probabilidade de Ulisses perdoar Penélope se, chegado a Ítaca, fosse encontrá-la nos braços de outro, uma vez que, apesar dos anos afastados, tinham uma relação duradoura. Não deixa de ser estatisticamente fascinante. Metendo Ulisses dentro de um aparelho de ressonância magnética iríamos ver que activaria menos o córtex cingulado anterior do que o córtex temporal lateral, dando uma resposta mais automática do que reflexiva, havendo assim uma forte possibilidade de fazer preponderar a ligação com Penélope em detrimento da putativa traição desta.
Claro que o facto de isto se ter passado na Grécia Antiga em vez de hoje, é irrelevante. E de ter sido escrito em Atenas em vez de Esparta, no Egipto ou na Índia, muito mais ainda. E o facto de Ulisses ser Ulisses e não Aquiles ou Agamémnon ainda mais. O que nos fascina e excita são as luzinhas a acender e apagar no cérebro de Ulisses ou de Penélope, correndo, graças a isso, atrás da realidade, para a decifrar. E, quem sabe, dormirmos mais descansados porque misturar luzinhas com dados estatísticos é o grande sonho de uma parte cada vez maior da humanidade.