05 setembro, 2013

STILL LIFE



Esta fotografia foi feita por Charles Nègre em 1848. 1848? Em 1848 sai o Manifesto Comunista escrito a meias pelos dois amigos alemães. O texto começa por dizer que "Anda um espectro pela Europa- o espectro do Comunismo". E um pouco mais à frente que "o comunismo já reconhecido por todas as potências europeias como uma potência".
Não é preciso ser especialmente versado em ontologia aristotélica ou tomista para perceber a piada que isto tem graças ao sentido de humor da própria história. A potência passou a acto, e o acto, entretanto, tornou-se definitivamente um espectro.





Esta fotografia foi feita por Charles Nègre em 1850. 1850? Dois anos depois de ter sido publicado o Manifesto Comunista e com a Europa ainda a fumegar com as Revoluções de 1848, a Primavera dos Povos. Uma Europa a ferro e fogo e o fotógrafo na sombra, brincando às máquinas fotográficas. Sim, numa Europa excitada com as revoluções, com o povo excitado por conquistar o paraíso, com o Comunismo excitado por a pouco e pouco deixar de ser espectro para se tornar numa foice e martelo na cabeça de milhões e milhões de vítimas, o homem parece não ter saído do seu estúdio para fotografar mulheres deitadas, nomeadamente uma Leda acompanhada do seu inseparável cisne.
Convenhamos que dá um bocadinho de mau aspecto. Soa a displicência, a desprezo pelos frenéticos batuques da história, monaquismo serôdio, sei lá, erotismo e sensualidade como forças reaccionárias e conservadoras, uma espécie de ópio para atordoar o povo e afastá-lo das barricadas, dos canhões e baionetas, da gritaria das ruas, impedi-lo de derramar sangue e espalhar as vísceras pelo chão em nome da liberdade, da igualdade, da fraternidade, da independência nacionalista.
Acontece que países onde se atingiram direitos, liberdades e garantias e níveis de vida invejáveis, não precisaram de revoluções para nada. A história segue um caminho como um rio para o mar. Há quem não tenha grande paciência e, para melhorar rapidamente a vida dos povos, enfiam-se elefantes em lojas de porcelana.
Hoje está tudo morto e o peso do calendário faz aumentar cada vez mais o silêncio que envolve o passado. Mas estas fotografias tão still, tão feitas de silêncio e quietude, vivem ainda graças ao facto de Charles Nègre trabalhar no seu estúdio fotográfico enquanto a arraia miúda andava alegremente aos tiros lá fora. A mulher precisa tanto do seu fotógrafo para se imortalizar como a realidade dos seus fervorosos acólitos para rapidamente desaparecer na espuma dos dias.