06 setembro, 2013

RIO BRAVO

Wang Nindge

Disse ontem que "A história segue um caminho como um rio para o mar". A frase presta-se a equívocos e como já fiz a limpeza à casa, já pus a roupa a lavar e a secar, e agora não sei bem o que fazer a seguir, resolvi voltar ao assunto.
A história não é como meia dúzia de pedaços de madeira nas mãos de um carpinteiro para fazer uma mesa. A mesa existe porque 1. Houve um carpinteiro para a fazer; 2. Porque houve um material (a madeira) para poder ser feita; 3. Porque o carpinteiro tinha uma ideia prévia sobre o que ia fazer, uma mesa e não uma cadeira; 4. Porque ao fazer uma mesa sabia para que estava a fazê-la, tendo um fim diferente do de uma cadeira.
A história não é assim. Não há um carpinteiro para a fazer, não há uma ideia prévia de como vai ser, nem uma finalidade justificada a montante. Portanto, quando falo na história como um rio em direcção ao mar, não estou a pensar num processo marcado por uma certa racionalidade que possa ser conhecida através de leis, tal como acontece com a Biologia, a Física, a Química, a Astronomia em relação à natureza. 
Na história não existe essa racionalidade. Não tem leis tal como a natureza. A história é feita de acasos, acidentes, contingências que fazem com que tudo o que aconteceu pudesse não ter acontecido e o que não aconteceu pudesse ter acontecido, não havendo, portanto, as mesmas invariáveis que existem na natureza, graças às quais sabemos que agora está calor mas que daqui a três meses vai estar frio. Porém, olhando para ela, parece haver uma certa racionalidade. Não uma racionalidade prévia como a que se encontra na cabeça do carpinteiro e que faz com que o processo de construção da mesa seja previamente definido através de diferentes fases racionalmente ordenadas, mas uma racionalidade que se vai descobrindo por improviso, intuição e acasos. Não um processo de tentativa e erro como na ciência pois isso implica um cientista que vai para o laboratório errar mas sabendo por que erra uma vez que também sabe o que procura. E do mesmo modo que não há um carpinteiro a fazer a história também não há um zeloso cientista em busca da sua verdade.
Vejamos, por exemplo, a relação entre feudalismo e capitalismo, entre monarquias absolutistas e monarquias parlamentares, entre esclavagismo e liberdade, entre totalitarismo e democracia. Por que é que nunca mais voltámos a ter uma sociedade feudal nos lugares onde existiu? E por que é que fomos do feudalismo para o capitalismo e não o contrário? E por que é que nunca mais passou haver escravatura onde ela foi abolida? E por que é apesar de ter havido na história momentos totalitários, absolutismos, fascismos, socialismos, haverá sempre uma propensão para a democracia? Por que é que foi a RDA que implodiu e não a RFA? Por que é que países como a Grécia, Portugal, Espanha passaram de ditaduras para democracias? Por que é que a América Latina, nos anos 70, era um vespeiro de ditaduras militares e hoje, à excepção de Cuba, temos democracias, embora umas mais musculadas do que outras?
Será tudo isto fruto de acasos sem sentido ou de modas caprichosas, ou haverá alguma racionalidade no processo? Não haverá uma propensão da razão humana e do bom senso para procurar formas de organização social mais justas, equilibradas, razoáveis, que sejam mais vantajosas para o colectivo embora desfavoráveis para alguns? E digo isto mesmo sabendo que há interrupções, desvios, retrocessos. Não estou a rejeitar a ideia de que a Europa, ou alguns países europeus, possa voltar a passar por certos pesadelos. Que se percam coisas boas que foram adquiridas. Não estou a querer dizer que esta racionalidade instintiva implique um processo linear e crescente. Mas sei que é sempre o bom senso que acaba por vir à tona, depois de mais um erro, depois de mais uma tentativa.
Independentemente das especificidades religiosas e culturais de cada povo, há uma razão que é comum a toda a humanidade. As sociedades nunca serão todas iguais mas mostra a história que são hoje mais iguais do que foram no passado. Não porque tenha que ser, porque esteja escrito que é assim, mas porque é assim que os povos, improvisadamente, acabam por ir fazendo. Claro que o mar não existe. O curso do rio nunca chega ao fim. O mar é apenas um ideal regulador para o qual o rio caminha sem nunca lá chegar. Mas também não conseguimos viver sem pensarmos no que virá a seguir. Um rio bravo, sem dúvida. Segue o seu curso, mas com as suas cheias, os seus remoinhos, as suas ondulações, as suas correntes e contra-correntes. Claro que, por isso, também com os seus milhões de mortos que não souberam ou não puderam nadar.