24 setembro, 2013

RAMOS ROSA SEM ESPINHOS

Angela Bacon

Há muito tempo, meu deus, mesmo há muito, era eu tão jovenzinho, entro no Cine-Clube de Torres Novas por haver à entrada um cartaz a anunciar uma feira do livro. Entrei completamente virgem: nada sabia de cânones e mainstreams literários, recensões críticas, correntes, novidades editoriais. Entrei porque tinha que ver com livros e eu gostava de livros. Lembro-me de andar por lá a bisbilhotar, a abrir e fechar livros sem nada saber deles até que vou dar com um que tinha por lá escrito coisas como Vejo um frágil arbusto/com o seu nome aceso/no silêncio da terra, fazendo com que arbusto, nome e silêncio deixassem de ser simplesmente arbusto, nome e silêncio, criando-se assim uma nova sintaxe e semântica que me deve ter dado tanta volta à cabeça como os livros de cavalaria na do Quixote.
Achei aquela linguagem estranha mas também sedutora. Não a entendia lá muito bem, se me pedissem para explicar o que aquilo era teria que engolir em seco mas, por outro lado, fazia-me entender que um frágil arbusto não é apenas um frágil arbusto mas um frágil arbusto com o seu nome aceso no silêncio da terra, seja lá o que isso for. O livro chamava-se Círculo Aberto e o seu autor absolutamente desconhecido para mim: António Ramos Rosa. Era o meu segundo livro de poesia (o primeiro fora-me oferecido por uma tia no aniversário mas não me picou) e um dos primeiros livros que comprei por minha iniciativa.
O impacto foi tal que fiquei com o desejo de escrever assim. Tive muito prazer em ler poesia e achei que também iria ter em escrevê-la. E comecei a escrevê-la. Comecei por achar piada à experiência, chegando a pensar que tinha, não uma uma veia, mas uma artéria poética a palpitar dentro de mim. Mas um saudável e perspicaz espírito auto-crítico fez rapidamente dissipar este desvario e perceber que a fonte de Hipocrene estava seca para mim e as musas iriam sempre olhar-me com risinhos de desdém.
Muito pouco depois disso fui a uma outra feira do livro na sede do clube da Zona Alta de Torres Novas e no meio de livros do Soeiro Pereira Gomes, Altino do Tojal, Manuel da Fonseca ou Fernando Namora fui dar com um tijolo enorme chamado Poesia Toda. Eu nunca na vida tomei LSD. Mas quando comecei a folhear aquilo, e aquilo deve ter mesmo mais de um quilo, devo ter sentido o que sente uma pessoa que toma um alucinogénio e precisa rapidamente de uma cadeira para aguentar o efeito. Na altura ainda não tinha sequer tocado numa Bíblia mas de repente fiquei a acreditar que acabara de adquirir a única e verdadeira Bíblia. Por causa disso voltei de novo a pegar na pena, a sentir-me o melhor poeta do mundo e arredores e algum tempo mais tarde a chegar à Faculdade de Letras de Lisboa na expectativa de encontrar em cada recanto uma jovem mulher com sua harpa de sombra. Porém, voltei, felizmente, de novo a ganhar juízo e a perceber a triste figura que estava a fazer, deitando assim as minhas folhas para o seu lugar natural: o caixote do lixo. Enfim, uma espécie de versão escatológica das Folhas Caídas.
Volvidos tantos anos, é cada vez mais nítido para mim que tenho tanto de poeta como de delegado de propaganda médica e que jamais um verso de jeito iria alguma vez ser produzido pela conjugação de neurónios que povoa a minha cabeça. Mais: a poesia é um lugar que hoje raramente frequento embora haja poemas dos quais gosto bastante e irei continuar sempre a gostar.
Sou, no entanto, um homem grato e sei reconhecer o que foi importante na minha vida ainda que hoje possa já não o ser. E aquele livrinho de Ramos Rosa foi mesmo muito importante. Aliás, voltei a comprar mais livros dele, não apenas de poesia mas também sobre poesia como o clássico Poesia, Liberdade Livre, ou A Poesia Moderna e a Interrogação do Real.
Não escrevo poesia, leio pouco poesia, mas tenho a perfeita consciência de que ter comprado e lido aquele livro, naquela idade, marcou bastante alguns aspectos da minha sensibilidade, da minha idiossincrasia, da minha personalidade. E isso jamais esquecerei.
Adeus poeta, gostei muito daquele bocadinho.