26 setembro, 2013

OUI C'EST LA FOLIE

Alfred  Eisenstaedt | Pilgrim State Hospital, NY, 1938

Creio que o que me perturba na festa da democracia, ou melhor, na folia carnavalesca da democracia, é o mesmo que me perturbava nas discotecas ou numa fábrica para onde ia trabalhar durante as férias escolares: o ruído. Porém, na fábrica, o ruído estava associado à produção e na discoteca associado ao prazer de dançar, o que até nem era o meu caso pois sempre detestei dançar. Já na festa da democracia o ruído para nada serve a não ser para a democracia se festejar a si própria, uma festa autofágica na qual se celebra a liberdade de ser patético, de ser ridículo, de fazer barulho e de se ser eleito ainda que não se saiba muito bem porquê. Sem dúvida que é bem mais agradável o silêncio de uma ditadura do que o chinfrim histérico da democracia. Mas também sem dúvida que a democracia, apesar do chinfrim, é um sistema mais racional e justo do que uma ditadura. Em suma, como cidadão, aceito a democracia como o melhor dos sistemas. Como pessoa sensível, agradeço que a democracia me deixe o mais possível em paz.
Infelizmente, não sou rico, não podendo por isso dar-me ao luxo de evitar sair de casa para ir trabalhar ou exilar-me num hotel alpino ou numa ilha grega bem longe da eleitoral pátria. Tenho pois que viver rodeado de candidatos a presidentes de câmara, de assembleias não sei quê ou de épicos pretendentes ao olímpico lugar de uma junta de freguesia, que mais parecem Testemunhas de Jeová do poder local, anunciando o paraíso, não na Terra mas lá na terra.
Ontem tive que atravessar 5 concelhos. Lá me fui angustiando de novo com a festa da democracia à custa dos milhões de euros gastos em cartazes inúteis, repletos de vacuidade mental e política. Para mim a democracia é assim como ir à casa de banho, uma coisa que tem de ser. Pronto, tem que se ir e vai-se. Mas tirando os que têm prisão de ventre, quem fica feliz por ir à casa de banho? Com a democracia também é um bocadinho assim. Por que raio hei-de ficar feliz pelo facto de o presidente da câmara ser o Manuel Germano? Ou ficar excitado porque a Assembleia não sei das quantas ficou com a composição X em vez da Y e o presidente da junta vai ser o senhor Armando dos seguros? Mas que raio contribui isso para a minha felicidade?
Eu até consigo perceber que as pessoas sintam alguma motivação para votar porque se sentem valorizadas, cidadãs, dignas protagonistas do processo histórico. Agora, mais do que isso, porquê? Já disse, aceito a democracia mas adoraria que a democracia não pensasse excessivamente em mim. Ela que não se preocupe comigo. Eu estou bem e recomendo-me. Ela, coitada, tão parva que anda, nem por isso.