20 setembro, 2013

LUCY IN THE SKYPE WITH DIAMONDS

JRC

Tão fatal e previsível como o crepúsculo que cobre diariamente o mundo com um negro vestido de noite, é eu aproveitar a mais ínfima oportunidade para fazer palpitar a lúgubre veia romântica que há em mim. Não, não vou falar do pio do moucho sobre o cipreste ou da luminosa e ancestral lua ofuscada por nuvens escuras que a afogam nas trevas. Acontece que a  minha volúpia crepuscular chega onde menos seria de esperar: ao skype.
Habituado ao telefone e à via epistolar, a minha primeira experiência com o skype pareceu-me um milagre. O telefone dá-me uma voz sem corpo. O mail apenas um conjunto de impessoais caracteres. Se recebo um e-mail onde está escrito "Olá, Zé Ricardo", tenho apenas uma mera presunção da pessoa. "Olá, Zé Ricardo" não passa de um conjunto de 12 caracteres que poderiam ter sido escritos por qualquer pessoa. Claro que há uma alma concreta por detrás deles, sei que vêm da alma da pessoa X e não da alma da pessoa Y, mas a virtualidade, neste caso, é suprema.
Até que. Até que tenho o meu primeiro encontro imediato do terceiro grau através do skype. Ao ver o rosto da pessoa do outro lado e ouvir aquela voz associada ao rosto da pessoa devo ter sentido o que sentiram os cientistas da NASA no seu primeiro contacto visual com os astronautas no espaço. Presumo que um prazer e fascínio científicos pelo maravilhoso tecnológico e capacidade humana para brincar a deus.
Mas os cientistas são os cientistas e eu sou eu, emergindo então a minha inevitável disposição para a fantasia e disparate do ethos romântico. Ao telefone, apesar de me chegar apenas uma voz, na minha cabeça trata-se de uma voz associada a uma pessoa que a minha memória guardou como sendo a pessoa real. Não a vejo mas, se a visse, sei quem iria ver. E o mesmo se passa com quem me escreva um mail. Porém, e paradoxalmente, o contacto visual através do skype em vez de me dar uma imagem mais real da pessoa acaba por torná-la mais irreal do que o telefone ou o mail. Porquê? Porque apesar de estar a vê-la, as condições em que a vejo (muito diferentes do realismo televisivo) transformam-a numa figura espectral, num fantasma que não vive num mundo que coincide com o espaço natural e empírico que eu habito.
Olho para aquela substância espectral e o que sinto? Não o que sente o cientista da NASA mas Ulisses quando, no Hades, tenta abraçar a mãe:

e, ponderando no coração, pretendi
então abraçar a alma da minha mãe falecida.
Três vezes me lancei para ela, dizendo-me o espírito
que a abraçasse!  Três vezes ela se evolou dos meus braços
como sombra ou sonho. Odisseia, XI, 204-208

Sentir que estou ali com alguém mas um alguém mas que se passou para outra ordem de realidade, alguém que está e não está, que é e não é. Ulisses vê o corpo da mãe, uma massa física composta de pele, ossos, músculos e nervos mas que ao mesmo tempo se apresenta como imaterial.
Ou sentir também o que sentiu Aquiles, no mesmo Hades, perante Pátroclo:

Como o fumo, a alma partira para debaixo da terra,
soltando um pequeno grito. Ergueu-se Aquiles de um salto,
bateu com as mãos uma na outra, e proferiu estas lamentações:
"Ah! É então verdade que existe uma mansão no Hades
uma alma e uma imagem, que não tem, contudo, espírito algum!
Toda a noite a alma do miserando Pátroclo esteve comigo,
a gemer e a lamentar-se e a fazer-me recomendações!
Maravilha é a parecença que tinha com o próprio!" Ilíada, XXIII,99-107

Quem é o Pátrocolo visto por Aquiles, que fala com Aquiles? O que leva este a dizer que se trata de uma alma e uma imagem sem espírito algum, apesar de ser um ser animado, um ser que fala, que se mexe, que se lamenta, que recomenda, ou seja, com as condições todas de um ser humano normal? Uma cópia imperfeita, uma sombra, um vestígio mimético do verdadeiro Pátroclo. Daí Aquiles, tal como Ulisses com a mãe, sentir que está e não está com Pátroclo, que o verdadeiro Pátroclo já não está ali, sendo um mero ersatz do verdadeiro Pátroclo que conheceu no mundo sensível e empírico, uma simples imagem (eídôlon) que nos ilude.
A experiência de Aquiles é parecida com a de Ulisses e a minha parecida com a de ambos. Uma experiência quase alucinogénica, como se entrássemos numa espécie de quinta dimensão.Gosto do Skype? Gosto. Mas não é a mesma coisa.