02 setembro, 2013

ESCALDÕES ROMÂNTICOS

Uta Barth

Não compreendo como há quem ainda leve a sério frases como "Conhece-te a ti mesmo", "Sê tu próprio", "Sê aquilo que és", essa velha e quase romântica busca de uma autenticidade algures perdida num ignoto cantinho da alma humana, em oposição a formas de pensamento e de acção que, tendo uma origem social, soam artificiais e revelam o lado mais filistino da natureza humana. Tal busca de uma autenticidade perdida não passa de uma ilusão. E, pior do que uma ilusão, uma perigosa ilusão. 
Por um lado, que interesse haverá em pedir a um daqueles vulgares sacanas nos quais tropeçamos todos os dias, que se "conheçam a si mesmos" ou que sejam "eles próprios"? O ideal seria mesmo que não fossem "eles próprios". Já para não falar em delinquentes da pior espécie cujo auto-conhecimento e busca de autenticidade se revelaria naturalmente preocupante. Em suma, o mundo está cheio de gente que não deveria ser "ela própria" Depois, ninguém conhece os seus limites ou a sua verdadeira natureza, e ainda bem que assim é. É verdade que o mal não está uniformemente distribuído pela humanidade. Mas também convém não esquecer que muitas pessoas se revelam melhores do que outras apenas porque não lhes foram dadas condições para serem tão más.
O desejo de pureza e autenticidade é uma caixa de Pandora que jamais deverá ser aberta. Será sempre preferível a ignorância acerca de nós mesmos e dos nossos actos, mantendo-nos imperfeitos e ignorantes a respeito dos nossos limites. Sabendo nós que tantas vezes a perfeição absoluta se aproxima perigosamente da imperfeição absoluta, o melhor é contentarmo-nos com a tepidez de um Sol de Inverno do que desejarmos um Sol que nos pode cegar e queimar. É que para a alma humana nunca haverá óculos escuros ou protector solar.