18 setembro, 2013

BACH TO BASICS

Elliot Erwitt [1949]

Passei parte do fim de semana a falar inglês. Dito assim até parece que me estou a armar num Kenneth Branagh ribatejano, tratando a língua de Shakespeare por tu. Não. Pelo contrário, eu, que consigo estar uma hora seguida a falar numa aula, recorrendo a metáforas, símiles ou a um arsenal de palavras que ajudem os alunos a superar um simiesco nível de desenvolvimento linguístico, cheguei ao fim destes dias com a triste e inquietante sensação de ter uma idade mental de 5 anos.
Eu leio razoavelmente Inglês embora sem dispensa de dicionário. Porém, quando falo, palavras ou certas construções gramaticais cujo significado entendo quando as leio, evaporam-se tão facilmente da minha cabeça como uma promessa eleitoral. Se tudo o que eu disse em Inglês ficasse registado num gravador, dir-se-ia tratar-se de uma criança de 5 anos ou um adulto a roçar a indigência mental: vocabulário muito limitado ou mesmo erradamente aplicado (com a mania de querer falar depressa como falo Português, acabei por dizer spun em vez de soap, ou windly em vez de windy) e uma construção frásica tão básica quanto a de uma criança. Acontece que sou um adulto normal e não um adulto com deficiências cognitivas ou uma criancinha. 
Esta desconfortável experiência levou-me mais uma vez a pensar na importância da linguagem e em como "Os limites da minha linguagem significa os limites do meu mundo" (Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus, 5.6). A minha questão é a seguinte: que tipo de pessoas poderão vir a surgir com a já manifesta crise da palavra escrita ou oral, reduzindo a linguagem a serviços mínimos? Ou seja, uma estrutura mental bem treinada lógico-matematicamente mas com evidentes deficiências no plano linguístico. Não estou apenas a pensar em contextos argumentativos de natureza formal como a política ou a advocacia mas nos aspectos mais básicos da nossa vida mental. Sem níveis linguísticos complexos acabamos igualmente por perder a complexidade mental que distingue o ser humano do animal.
Não estou a querer dizer que temos ser todos cíceros, demóstenes, péricles ou antónios vieiras a impressionar as massas com o poder do verbo. Acontece apenas que o mundo de uma pessoa linguisticamente desenvolvida não pode ser o mesmo mundo de uma outra com deficiências nessa área. Bach será sempre Bach. Mas Bach tocado por Richter não é o mesmo Bach tocado por uma criança ou um adolescente que começa a aprender a tocar piano. Se um dia deixarmos de ter bons pianistas deixaremos de ouvir Bach. Se deixarmos de falar ou escrever bem também o mundo e a vida tal como a conhecemos desaparecerão.