08 setembro, 2013

ALEX COLVILLE | CÃO E PADRE (1978)



Sim, sem dúvida, um cão e um padre, o título não engana, dois corpos delimitados e ocupando espaços diferentes. Mas, sendo dois corpos distintos, a sua uniformidade cromática faz com que pareçam duas partes de um mesmo todo. Eis, pois, uma totalidade que salta à vista: dois corpos pretos fundidos numa totalidade preta. Mas há ainda uma outra, e igualmente óbvia, totalidade. Os dois corpos confluem para uma mesma cabeça, existindo assim uma sugestão de monocefalia. A cabeça do padre não se vê. Ou melhor, exibe-se uma pequena parte para nos lembrarmos que existe. Porém, ao sobrepor quase integralmente a cabeça do cão à do padre, o pintor faz com que a primeira acabe por anular a segunda, ganhando total primazia. Portanto, dois corpos, duas substâncias físicas, duas coisas extensas dominadas pela cabeça do animal. Temos então uma grande totalidade, síntese de duas outras totalidades: Cão e padre como um só graças a uma totalidade física e a uma totalidade mental.
A partir daqui tudo aqui é unidade. O olhar do padre é o olhar do cão. A quietude e o silêncio do padre é a quietude e o silêncio do cão. O horizonte para onde olha o padre é o mesmo horizonte para onde olha o cão. Nós vemos o cão e isso basta para vemos o padre, evitando-se assim uma redundância visual.
Num célebre ensaio chamado "Como é ser um Morcego?" Thomas Nagel escolhe esse animal porque as suas experiências internas não estão tão afastadas das nossas como acontecerá com uma vespa ou uma solha, nem estão tão próximas das que acontecerão com mamíferos superiores. O que neste ensaio se discute não é conhecer cientificamente as experiências internas do morcego, as quais obviamente terá, observando o funcionamento neurológico e sensorial do morcego, do mesmo modo que sabemos o que se passa no cérebro de uma pessoa a quem se faz um exame por emissão de positrões. O que se discute é se podemos ter a experiência da experiência do morcego, coisa completamente diferente.
Claro que este quadro onde vemos um cão e um padre pode fazer invocar o ensaio de Nagel, neste caso pela possível experiência de ambos perante o mar. Mas seria uma possibilidade mais viável se em vez de um padre tivéssemos aqui uma outra pessoa qualquer. Então, sim, teríamos uma comparação geral entre as experiências do cão e do humano. Mas porquê então um padre e não uma outra pessoa qualquer? A identidade específica de um padre é demasiado forte para que possa ser uma simples escolha arbitrária do pintor. Não posso por isso desprezar esta pista, jogando assim com um sentido e alcance completamente diferentes.
O que um padre tem de específico se comparado com um filósofo, um artista, um cientista ou uma outra qualquer pessoa, é o facto de, graças a uma associação entre o domínio da Teologia, enquanto corpo teórico, e o domínio da fé, ter uma relação privilegiada com os mistérios do sobrenatural. Um padre pode ser um homem como outro qualquer. Mas, enquanto padre, enquanto intermediário entre os fiéis e Deus, enquanto hermeneuta, coloca-se numa posição de superioridade face aos outros, vendo assim legitimado o seu estatuto sapiencial, pastoral e litúrgico.
Ora, o que vemos nesta pintura são duas criaturas olhando o infinito do mar, mar que surge como símbolo do sublime enquanto domínio impermeável aos mecanismos normais da racionalidade, o mar cuja infinita grandiosidade exprime uma transcendência metafísica, o mar enquanto expressão de uma imensidão que nos esmaga.
O padre pode conhecer o Antigo e o Novo Testamento, pode conhecer todos os preceitos litúrgicos, pode conhecer todas as grandes construções teológicas e filosóficas, pode saber grego, latim e hebraico. Neste sentido, é abissal a distância que vai do padre ao cão. Todavia, perante o mar, ambos ficam reduzidos à sua insignificância, à sua pequenez, à sua ignorância. Perante a simbólica imensidão do mar, não há homem nem mulher, não há grego nem judeu, não há cultos nem ignorantes, não há ser humano nem animal. Há apenas um olhar. Um olhar ao qual nada vale quaisquer quadros racionais ou sapienciais. Um olhar puro que aqui perde quaisquer referências, um olhar já sem a rede do conhecimento, da lógica, das categorias racionais. Um olhar que pode chegar longe, e acredito que ambos contemplem o fio do horizonte. Mas que, chegando longe, nada conhece, nada percebe, nada sabe. O olhar de ambos pode ser limpo. Mas dentro das suas consciências devemos encontrar a mesma negritude que os une fisicamente.