03 setembro, 2013

A BANALIDADE DO RISO

Alexander Rodchenko | Pioneira (1930)

O que acho mais espantoso no piropogate do Bloco de Esquerda não é a idiossincrasia subjacente à coisa. Já tenho idade que chegue para ter ouvido de tudo na vida. E o que é minha idade comparada com o peso secular da história? O que é verdadeiramente espantoso é a sua dimensão cómica, burlesca e bufa, capaz de conseguir divertir um país inteiro.
Espantoso, porquê? As pessoas esquecem-se, mas convém lembrar a origem simultaneamente estalinista e trotsquista (o que também não deixa de ser burlesco) do Bloco de Esquerda, que invoca, juntamente com o nazismo, os piores pesadelos do século XX. Imaginemos pois esta ideologia do piropo num contexto soviético, chinês, romeno ou cambodjano de outros tempos. Ou no Portugal de Salazar, na Espanha de Franco, na Alemanha de Hitler. Ou na actual Coreia do Norte, no actual Irão, na actual Arábia Saudita. Mas nós vivemos numa democracia aberta e pluralista e febres moralistas como esta acabam sempre por ficar expostas ao riso. E achamos isso tão normal que até nem pensamos no plasma flamejante e torquemadesco que se esconde sob a desvairada roupagem verbal das nossas susceptíveis feministas.
O que é interessante pensar é o modo como a ocasião faz o ladrão. Pensar em pessoas que no século XIX ficaram com as mãos manchadas de sangue porque foram proprietários rurais russos, explorando os servos, ou porque foram fazendeiros americanos do sul, explorando os seus escravos, ou porque antes disso foram padres inquisidores, reis facínoras ou simples peões sem papas nas suas acções tremendas, e que se vivessem hoje seriam pacatos cidadãos. Também em sentido contrário, se meninas engraçadas do Bloco de Esquerda, tais como as nossa piropólogas e piropoclastas, tivessem vivido noutro contexto social, político e ideológico, e poderiam ser temíveis exploradoras do sofrimento alheio, em nome de uma causa, de uma moral, de uma ideologia totalitária e purificadora.
Diz Jonathan Littell, em As Benevolentes, que "sem os agulheiros ferroviários, os fabricantes de betão e os contabilistas dos ministérios, um Estaline ou um Hitler não passam de um odre inchado de ódio e de terrores impotentes". Tem toda a razão. Mas também convém lembrar que é muitas vezes por, felizmente, não existir qualquer Estaline ou Hitler, que os agulheiros ferroviários, os fabricantes de betão e os contabilistas dos ministérios, não passam de agulheiros ferroviários, fabricantes de betão e contabilistas dos ministérios.