20 agosto, 2013

SERÁ QUE CARLOS VIROU GAY E EGA FOI PARA UM MOSTEIRO BENEDITINO?


Também acho um valente disparate aquilo que o Expresso fez com os Maias: convidar um grupo de escritores para darem continuação à obra-prima de Eça de Queiroz. Independentemente da qualidade dos escritores ou dos textos, não tenho qualquer curiosidade em saber o que raio possa ter acontecido depois dos dois amigos terem corrido atrás do "Americano". Porquê? Porque acabou, fim, fin, the end, ende, koniek. Acabou como o escritor queria acabasse, sendo um sacrilégio mexer no texto. Sei lá, é como conspurcar um túmulo ou decorar uma igreja gótica com coisas modernas porque fica giro e é bem capaz de ser ousado e divertido.
Outra coisa é escrever um texto, narrativo ou poético, a partir de uma pintura, fotografia, escultura, música ou bailado. Mas como assim, já que se trata igualmente de obras acabadas, obras cujos autores lhe atribuíram um final a partir do momento em que as concluíram?
Espreitemos O Sonho, de Goya. O quadro está aí à nossa frente e não é mais nem menos do que o vemos nele. Ora, sacrilégio seria alguém agora pensar que o quadro pode não estar terminado ou tem potencial evolutivo e, por isso, iria acrescentar-lhe novos elementos. Seria repetir na pintura o mesmo disparate que na literatura se está a fazer com Os Maias. Mas escrever sobre o quadro implica entrar noutro registo ou noutro jogo de linguagem, chamemos-lhe assim. Não significa acrescentar dados novos ao objecto mas criar um novo objecto cuja identidade é completamente diferente.
Ainda assim, pode não acontecer com todos os quadros. Pensemos por exemplo, em temas clássicos da história da pintura como A Expulsão do ParaísoJudite e Holofernes, Susana e os Velhos, o Noli me tangere, A Anunciação ou A Descida da Cruz. São quadros cujo significado se esgota em si próprio, que mostram exactamente o que são e aonde querem chegar. São por isso, tal como Os Maias, obras fechadas. Isto não invalida, porém, possíveis exercícios criativos a partir desses quadros, o que será completamente diferente de uma tentativa de continuar os episódios, admitindo com isso, implicitamente, a sua incompletude. 
No caso de O Sonho, pelo contrário, estamos perante uma obra completamente aberta, sobre a qual se pode escrever livremente, se pode compor uma música, ou até fazer um filme. Isso não é conspurcar a obra, violá-la, atirar-lhe à cara a sua intrínseca insuficiência. Trata-se de expandi-la, enriquecê-la, fazer com que continue viva através de novas linguagens.