17 agosto, 2013

O VALE ERA VERDE

Clarence White | Manhã [1908]

Quando jovem, Friederich Hölderlin foi colega e amigo, no seminário de Tübingen,  de dois rapazes que viriam a ser anos mais tarde  grandes filósofos: Hegel e Schelling. Dos três grandes amigos foi o único que não se tornou filósofo, trocando a filosofia pela literatura, tendo escrito uma tragédia, um romance epistolar e, sobretudo, poesia. Alguns anos mais tarde,  em 1799, escreve esta carta à mãe:

«Estou perfeitamente de acordo consigo, queridíssima mãe, a respeito do que será bom para mim se eu tentar, daqui em diante, fazer meu o ofício menos exigente que para mim pode existir, excelente também porque, afinal, a inclinação talvez infeliz para a poesia, à qual me opus desde a minha juventude, com um esforço sério, através de ocupações ditas mais sólidas, continua a estar em mim e, segundo toda a experiência que ganhei comigo próprio continuará em mim por quanto tempo eu viver. Não quero decidir se se trata de uma ilusão ou de um verdadeiro impulso natural. Mas, pelo que sei agora, instilei em mim uma desarmonia e um mal-estar profundos, também, por ter-me ocupado de actividades que pareciam ser menos adequadas à minha natureza, como por exemplo a filosofia, investindo nelas a parte esmagadora da minha atenção e dos meus esforços, e isso de boa vontade, porque temia a reputação de um poeta fútil. Durante muito tempo eu não sabia por que motivo o estudo da Filosofia, que costuma recompensar o tenaz esforço que requer com calma, só me tornava, quanto mais exclusivamente me lhe dedicava, cada vez mais falho de paz e até brusco; e agora explico-o a mim mesmo por me ter afastado num grau superior ao necessário da inclinação que me é própria, e o meu coração, dedicado ao trabalho que não lhe é natural, suspirava pelo seu afazer predilecto, tal como os pastores suíços, ao fazerem vida de soldados, sentem saudades do seu vale e do seu rebanho».

A carta ainda continua mas fico por aqui. O que diz o grande poeta alemão? Receoso da possível queda numa futilidade poética e infelicidade associada a uma sentimentalidade que é exclusiva dos poetas, decidiu dedicar-se à filosofia, uma actividade mais consistente, intelectualmente mais sólida, política ou academicamente mais aceitável. Em suma, trocou o mistério da noite e das estrelas que subtilmente emergem no meio da imensa escuridão apenas visíveis para alguns olhos, pelas luzes diurnas da argumentação racional e do conceito. Uma actividade bem mais exigente para a qual já não basta a genuína espontaneidade do coração mas o esforço da razão, a dureza do pensamento,  a obsessão pela verdade. Quem lê o Prefácio da Fenomenologia do Espírito, acabado de escrever pelo seu amigo Hegel no momento em que as tropas de Napoleão passavam por baixo da janela do seu quarto, percebe bem o que isso quer dizer.
Mas diz à mãe que está farto dessa exigência e que agora espera da vida o que de menos exigente pode haver. E o que será isso, afinal? Seguir o seu coração que, tal como o vento, que vai mas sem saber que vai, para onde vai e porque vai, o levará à sua pátria: a poesia. Fá-lo infeliz a poesia? Pois faz. Mas é uma infelicidade muito sua, uma infelicidade na sua própria pátria, como se estivesse destinado a viver naquela infelicidade. É infeliz mas é infeliz dentro da sua própria pátria.
Daí o poder da imagem do pastor suíço que deixa o seu vale e o seu rebanho para ir lutar em terras estranhas. O pastor (ou o agricultor) pode ser pobre e levar uma vida humilde. Mas tem os cereais, a fruta, o leite, o queijo, as lãs, a sua fonte para matar a sede e os seu fiel companheiro para guardar o rebanho. Tem o sol para trabalhar durante o dia e a lua para o acompanhar no sono nocturno. E tem sobretudo a sua casa, as suas paredes, o seu chão, o seu telhado, as suas janelas através das quais espreita o seu próprio mundo. Porém, vestindo a farda de soldado, transforma-se de imediato num apátrida. Veste uma roupa que não foi confeccionada com a lã das suas ovelhas no seu tear doméstico. Troca a enxada do trabalho pela arma da guerra. Um soldado é um homem sem eira nem beira. Um soldado não acorda para viver mas apenas para sobreviver. 
Foi essa a percepção do poeta alemão ao olhar à sua volta. Enquanto filósofo, sentiu-se um soldado de arma na mão disfarçado no meio da vegetação para não ser morto, em vez de um pobre pastor que guarda o seu rebanho no silêncio do ocaso apenas interrompido por uma suave sinfonia de chocalhos.
É verdade que Hölderlin viria a enlouquecer poucos anos depois. Mas enlouqueceu como poeta, enlouqueceu e morreu na sua cama em solo sagrado, o solo da sua pátria.
Há coisas na vida que não têm preço.