11 agosto, 2013

FOLHAS CAÍDAS

Michael Winterbottom | 9 songs [fotograma]

Conversation you're not likely to hear in the 20th century:
Him: "Hey, Honey, what do you want to do tonight?"
Her:"How about some philosophy?"
Him:"Sounds great!"
Her:"Invite the neighbors!"

Tom Morris, Philosophy for Dummies


No último número da revista Happy, vem uma coisa intitulada "Let's talk about (bad) sex - Elas confessam que o sexo com o companheiro é mau", com o testemunho de várias mulheres insatisfeitas com a sua vida sexualVejamos o caso da Cátia:

«Eu gosto de sexo. E, embora já tenha tido experiências incríveis e outras médias, sempre tive bom sexo. Mas, com o Pedro, as coisas não fluem da melhor maneira», explica Cátia, de 28 anos. «Estamos juntos há um ano e estou cansada de esperar que as coisas melhorem. Acho que simplesmente não temos química. Ao princípio, acreditei que fosse por não conhecermos bem, parecíamos dois estranho na cama, com pernas por todo o lado, nenhum sabia muito bem o que fazer. Já falámos, já explorámos as coisas de que gostamos...mas não há aquele "click". O Pedro gosta de ficar deitado, agarrado a mim. Eu gosto de euforia, de excitação e de jogos eróticos. A forma como encaramos o sexo é muito diferente. Amo-o e odeio dizer que o sexo muda tudo, mas a verdade é que muda. Às vezes, simplesmente não tenho vontade de ir para a cama com ele e invento desculpas. Ele fica deitado no sofá, a falar, e depois começa a tocar-me muito subtilmente, como se esperasse a minha aprovação. Isso deixa-me impaciente e irrita-me. Porque eu quero é que ele me encoste contra a parede e faça sexo sem pedir licença. Já cheguei a fingir que tinha trabalho urgente e a ficar duas horas ao computador, a ver vídeos, para não ter que estar no sofá com ele. Pergunto-me se esta relação vai a algum lado, se não devia mentalizar-me de que ele nunca vai ser como eu quero»

Não é com vontade de puxar da pistola que fico quando apanho este tipo de leitura. Pior do que isso, puxo logo do obscuro sociólogo que há em mim para tentar compreender o meu Zeitgeist, neste caso, uma complexa mistura de Volksgeist e Poltergeist.
No caso da Cátia, não quero saber das diferenças entre o bom e o mau sexo ou a maior ou menor intimidade entre ela e o Pedro. Importante é a parte final, quando questiona se a relação vai a algum lado por causa do seu mau sexo. Isto, sim, é o nosso tempo. Sociologiazinha pura e dura. 
Não é que em tempos passados o sexo não fosse valorizado. O sexo teve sempre valor mesmo que não existisse dentro do casamento. Os homens iam lá fora procurar o que não tinham dentro de casa e as mulheres coleccionavam amantes como cerejas. Não por acaso Choderlos de Laclos põe a Marquesa de Merteuil a dizer à jovem inocente e apaixonada pelo visconde de Valmont: "Para quê tê-lo como marido se é muito melhor tê-lo como amante?". O que está em questão é a ideia moderna que faz do sexo, ou melhor, do bom sexo, o motor de uma relação, o critério que determina a saúde da relação.
O escritor russo Ivan Turgueniev era um homem bonito, um figurão, rico, inteligente, muito pretendido pelas mulheres. Mas passou grande parte da sua vida mantendo uma apaixonada relação platónica, ou semi-platónica, com Pauline Viardot, cantora de ópera francesa, casada, e de cujo marido ele era amigo. Para onde iam eles viver, ia ele também viver ao lado: Baden-Baden, Paris, Courtavenel, Bougival.
Aos 41 anos, numa carta a um amigo, confessa que tem relações sexuais meia dúzia de vezes num ano e que isso lhe basta. Boris Zaitsev, seu biógrafo, diz que o escritor se passava sempre que, à mesa de um restaurante, os amigos falavam levianamente do amor, não suportando essa visão gastronómica do amor.
A vida passional e sexual de Turgueniev não deve servir de exemplo para ninguém. Bem, para ser sincero, não deve servir nem deixar de servir, o amor e o sexo de cada um a cada um apenas deve dizer respeito e ninguém tem nada que ver com isso. Mas pronto, é verdade que, mesmo para os padrões do século XIX, muito longe da desportiva ou circense sexualidade contemporânea, a contenção sexual do escritor russo, no seu meio social, seria sempre qualquer coisa de anormal.
Eu não quero entrar aqui no já tão estafado jogo de psicologia de quiosque e dar os meus palpites sobre o que possa ser bom sexo ou uma vida sexual normal, qualitativa e quantitativamente. Sei lá se deve ser duas vezes por semana, de 15 em 15 em dias, uma vez por mês ou ao domingo de manhã antes de se ir passear para o centro comercial. Ou o que se deve fazer para se considerar que há bom sexo. Acho apenas que um pouco de lucidez deveria fazer perceber, e falo como homem do século XXI, que o que diz a Cátia deveria parecer tão tolo como o que diz Turgueniev na carta ao amigo. Ou melhor: mais tolo ainda. A vida sexual de Turgueniev resulta de um acto livre, consciente, idiossincrático, assumido. Podemos achá-lo tontinho e dizer que o homem nem sabe o que perdeu por não fazer sexo, mas há que respeitar e compreender a sua escolha como respeitamos o celibato de um monge. A Cátia, por sua vez, é uma tontinha, arrastada pelo seu Zeitgeist como uma folha de árvore em dia de forte ventania. Infelizmente, nestes tempos intelectualmente outonais, são muitas as folhas que esvoaçam perdidas no meio de uma floresta cada vez mais despida.