09 agosto, 2013

DE OLHOS BEM FECHADOS

Lewis Carroll | Ellen Terry [1865]

Acho uma parvoíce esta ideia de estar a pensar no lugar X ou Y para, todos contentinhos, vermos antes de morrer. Prefiro o precioso conselho do nosso Francisco de Holanda, que aconselhava os pintores a vendarem os olhos para verem melhor. Antes de morrermos deveríamos era cegar para evitarmos morrer como turistas. Podemos viver como turistas, sempre em busca de novas experiências, de novas sensações, novos sabores e cheiros, novas paisagens. Mas um tipo deveria morrer como pintor que, num rasgo intuitivo, consiga retratar, consoante os casos, a mais ou menos complexa, a mais ou menos colorida, a mais ou menos focada ou desfocada, a mais ou menos impressionista, surrealista, expressionista, cubista paisagem, que foi a sua existência. Ainda que seja para descobrir que essa paisagem se parece com uma paisagem de Bosch ou de Bruegel, ou pior ainda, nalguns casos, que o quadro não passa de uma tela em branco ainda por pintar. Podemos viver como turistas. Mas devíamos todos morrer em casa.