19 agosto, 2013

BAZAROV

Cristina García Rodero

Uma notícia como esta deveria pôr-me aos saltos e ficar devotamente grato à minha genética. Aliás, mais do que ateu, sou absolutamente ateu, daí que, mais do que inteligente, eu deva ser para os cientistas um caso raro de suprema inteligência. Acontece que prefiro continuar sossegadamente sentado ou a pensar mais no que vou fazer para o jantar do que a adorar os meus cromossomas. Tenho várias razões para isso.
Antes de mais, uma razão empírica. São conhecidos casos de milhões de pessoas que são simultaneamente religiosas e inteligentes, muito inteligentes ou mesmo geniais, tal como existem milhões de outras que são simultaneamente ateias e estúpidas. Quer isto dizer que não existe uma relação causal entre as duas coisas e que, à partida, existe a forte possibilidade de eu ser estúpido, já agora, conclusão que está longe de me surpreender.
Outra razão tem que ver com uma errada visão holística da inteligência. Quer dizer, duvido que existam pessoas absolutamente inteligentes. Pessoas que sejam inteligentes em tudo o que pensam, façam, desejem ou decidem. Um prémio Nobel da Física (já agora ateu) pode ter uma vida pessoal desastrada, marcada por irracionalidades várias, más decisões, incapacidade de lidar com certas situações tão simples como estrelar um ovo.
Outra razão ainda tem que ver com a minha irritação perante a obsessão científica por coisas inúteis e vagas mas cuja funcionalidade e eficácia invoca uma devoção quase religiosa nos rebanhos que correm atrás da mais recente novidade científica. Quero lá saber se sou inteligente ou quanto pesa a minha inteligência, o famoso e tão ambicionado QI. Eu estou preocupado, sim, com o meu peso quando me ponho em cima da balança e com o facto de a minha barriga estar a crescer mais do que devia. A minha inteligência vale o que vale, há coisas que consegui fazer na vida porque tive inteligência para as fazer, outras que não fiz ou erros que cometi porque não tive inteligência para fazer as primeiras ou evitar os segundos. E não quero que a minha inteligência tenha mais peso na avaliação do que eu sou do que o que merece. Eu não me quero reduzir a uma máquina reduzida a uma lógica de funcionalidade e eficácia. Detesto a ideia de eficácia, de ser alguém que pode ser entendido como capaz de atingir eficazmente certos objectivos, metas, planos e outras merdas que tais. Já agora, esta obsessão científica por coisas inúteis e vagas conduz a uma escandalosa tendência da ciência para o erro ou para o bluff. A ciência destas coisas vagas e inúteis faz-me lembrar cada vez mais os jornais desportivos nas fases das contratações de jogadores, em que as verdades e as mentiras têm um prazo de validade estupidamente reduzido.
Mas é não é só no desvario da pressa que a ciência e seus devotos revelam  uma enorme estupidez. É também na sua incapacidade para desprezar tudo o que não seja passivel de ser entendido cientificamente, que não possa ser medido, pesado, calculado, tudo o que esteja para além da tangibilidade empírica. Vale a a pena, a este respeito, ler Pais e Filhos, de Turgueniev, nem que seja só para conhecer Bazarov, personagem, ridicularizada pelo escritor, que apenas acredita na ciência e que pretende regular a sua existência através de uma cartilha científica. Neste sentido, a ciência revela uma enorme estupidez e incapacidade para lidar com registos que, sendo mesmo absurdos e anti-científicos, organizam as vidas das pessoas e das comunidades de um modo social, estética e espiritualmente muito mais eficaz. Sim, eficaz. Mas uma eficácia que para nada serve, inútil, que serve apenas para se alimentar a si mesma. E isso, sim, é o que mais de humano existe. Deixe-se a outra eficácia para os animais pois esses, sim, foram feitos para sobreviver e não para ouvir a música de Bach ou de Arvo Pärt, de ver os filmes de Tarkovski ou a pintura de El Greco, de apreciar a grandiosidade da luz gótica ou do recolhimento românico, participar em festas ou cerimónias religiosas, ou simplesmente para ir em peregrinação para rezar perante um deus que mesmo que não salve, e eu não acredito que salve pois nem sequer acredito que deus existe, acredita-se que pode salvar.