24 agosto, 2013

A QUEDA DE UM ANJO

Ferdinando Scianna | Sem título


Este país não é para velhos mas também não é para mortos. Portugal é um país estupidamente revolucionário no seu afã de seguir os últimos gritos da moda, apagando ou truncando o que foi vivido por gerações anteriores. Parece que o anjo da história de Benjamin, ficou, nesta terra, cego de um olho, assistindo apenas aos vendavais de progresso. Dos centros históricos de cidades, cafés antigos, velhas tabernas e edifícios seculares, às tradições populares, sejam religiosas ou profanas, pouca coisa neste país não é arrasada pelas revolucionárias tempestades do futuro e pela saloia embriaguês da modernidade.
Vale a pena ler estes excertos de um artigo de Jane Rendell sugestivamente chamado Where the Thinking Stops. Pegando no anjo da história de Benjamin, e marcando todo o texto com as virtudes dialécticas da ideia de anjo como ligação (fala mesmo em "pensamento angeológico"), Rendell invoca o valor de uma purificadora nostalgia (stain-remover) para pensar a relação entre os diferentes tipos de espaço, nomeadamente espaços urbanos, e o tempo, permitindo assim construir o presente como uma sobreposição de elementos passados e futuros. Os locais desabitados, vazios, em ruínas, são, neste sentido um bom campo de criativa intervenção para ligar o que já não existe ao que ainda não existe.
Eu estava a pensar nisto e, naturalmente, não resisti a projectar a ideia num país tão criador de vazios e despojos como é Portugal. Vazios e despojos há por todo o lado mas em Portugal chega a adquirir uma dimensão patológica. Até que ponto é possível recuperar esses vazios e despojos? Não basta abrir um restaurante com o nome de "Tasquinha do Avô", "Taverna do não sei quantos" ou um café com vestígios de café antigo para voltarmos a ter as velhas tabernas ou os cafés antigos, tal como os europeus, por todo o lado, continuam a ter os seus equivalentes há séculos. O Majestic ou a Brasileira? Mas o Majestic ou a Brasileira não são cafés. São postais ilustrados ou locais de culto onde os nativos mais nostálgicos entram para a tentativa, frustrada, de lá estarem sem perceberem que lá estão, porque essa é a única maneira de verdadeiramente lá estar. Um inglês que entra num pub não pensa que está num pub. Um português que decide ir ao Majestic pensa que está no Majestic. E não é com lojas gourmet com produtos regionais em zonas turísticas para serem vendidos a estrangeiros sequiosos de conhecer a identidade nacional, que recuperamos uma identidade gastronómica que fomos deixando morrer a pouco e pouco.
Nem o olho criativo de um decorador de interiores ou de um arquitecto em busca de uma genuinidade perdida a salva, uma vez que quase sempre se fica com um ambiente de frívola elegância, muito longe da espontânea e inconsciente originalidade do que é antigo.O passado, quando regressa, e quanto mais tarde pior, regressa sempre como comédia, como qualquer coisa de risível. Em Portugal, o anjo da história, só pode mesmo ser um anjo caído.