22 agosto, 2013

1,2,3 ACÇÃO!

Sue Ford |Lynne and Carol, 1962

Para além de grande romancista, David Lodge é também um ensaísta com muito trabalho de casa que enriquece os seus romances. Basta ler o seu fabuloso romance Pensamentos Secretos para perceber os seus conhecimentos na área das neurociências e da filosofia da mente.
É um enorme prazer lê-lo em ambos os registos. Ontem calhou estar a ler o seu ensaio A Consciência e o Romance, nomeadamente um capítulo intitulado Henry James e o Cinema. Claro que mal vi o título levantaram-se-me logo as orelhas, lembrando esta e esta coisa que escrevi vai para dois anos.
A relação que então eu fiz entre o livro de Ishiguro e o filme, fez ele com livros de James que viraram filme, com a diferença, claro, de o fazer muito melhor. Diz Lodge que, por muito bons e fiéis ao texto que eles sejam, traduzir cinematograficamente um escritor da consciência como é James, será sempre uma tarefa limitada. O que não deixa de ser curioso, tratando-se de romances cujas histórias são lineares, histórias com princípio, meio e fim, abordando temas bastante cinematográficos como o sexo e o dinheiro e a relação entre ambos e sem intrigas secundárias. Por exemplo, o conteúdo narrativo de Retrato de uma Senhora pode ser resumido em poucas frases, o que, segundo ele, será uma enorme vantagem de um ponto de vista cinematográfico. Porém, a frustração será sempre grande.
Ele pega numa passagem do capítulo 41 e estabelece uma comparação entre o que está no livro e o guião do filme. Trata-se de um diálogo entre marido e mulher a respeito da filha de ambos.
No romance está assim:
- A minha filha só tem de ficar sentada muda e queda para se tornar Lady Warburton.
-Gostaria que isso acontecesse?









-Gostaria muitíssimo; seria um grande casamento.


No guião do filme está assim:
-Está a ver, eu acho que a minha filha só tem de ficar sentada muda e queda para se tornar Lady Warburton.
-Gostaria que isso acontecesse?
-Gostaria muitíssimo.

Pelo que aqui lemos não há qualquer diferença significativa entre o que está escrito em ambos. Porém, no livro, o espaço que eu deixei propositadamente em branco, é ocupado com o que se passa na consciência da mulher no momento em que faz a pergunta ao marido. Uma longa passagem, psicologicamente complexa e de uma enorme subtileza mental. Ora, quem vê o filme, assistindo a este diálogo, jamais penetrará na consciência da mulher, ficando-se apenas pelos comportamentos, pelo que é directamente observável e ao alcance dos sentidos. Nem sequer tem consciência do espaço em branco que aqui deixei.
A minha questão agora é esta. Se virmos bem, as relações sociais, sejam estas mais, ou menos pessoais, seguem um registo mais cinematográfico do que literário, e literário no sentido de uma literatura da consciência (James, Virginia Woolf, Joyce, Proust). Somos corpos que ocupam espaços físicos (casa, local de trabalho, rua, cafés, restaurantes) corpos que se movimentam, que reagem a estímulos mas também corpos que produzem sons vindos de consciências. Neste sentido, a vida decorre como um filme em que uma sucessão de fotogramas flui perante os nossos olhos de espectadores. Temos acesso aos diversos mecanismos dos corpos mas não temos acesso directo às consciências que animam esses corpos ou que estão na origem do que dizem esses corpos. Não temos, como não têm os espectadores que vêem Retrato de uma Senhora.
A questão agora é a seguinte. Será isso bom ou mau? À partida parece mau. Quem lê James tem acesso a muito mais, e mais rica, informação, do que quem vê o filme. Porém, se nas relações sociais tivéssemos directamente acesso à consciência uns dos outros como se estivéssemos a ler um romance, essas relações sociais seriam insustentáveis.
O filósofo Thomas Nagel tem um texto onde diz que se as pessoas fossem sempre sinceras, as relações entre si seriam insustentáveis. Neste caso, trata-se da questão de dizer sempre a verdade e sermos sempre sinceros no que dizemos. Em relação ao acesso à consciência seria ainda mais tremendo. O problema que haveria em vermos as consciências uns dos outros como James vê as consciências das suas personagens, não seria apenas pela falta de privacidade. A falta da privacidade da consciência é muito diferente da falta de privacidade do corpo. Até porque há pessoas que fazem nudismo ou que noutros contextos não têm qualquer problema com a sua nudez. Mas da privacidade da consciência ninguém prescinde pois é a nossa liberdade e o direito a uma íntima transgressão que está em jogo. Mas o problema seria também, ao nível da consciência, o que aconteceria se deixássemos de ver árvores, pedras, luz, flores e corpos para passarmos a ver átomos, moléculas, células, neurotransmissores, nervos, tecidos e dezenas de outros elementos bio-físico-químicos. No fundo é assim que James vê as suas personagens. Mas ele é um escritor. Nós estamos aqui para viver e se fizermos da vida um bom filme já não será mau de todo.