21 julho, 2013

SOL E SOMBRA


Paulo Nozolino

Que coisa mais ingrata começar as férias num fim de semana. A pessoa passa uma semana à espera do fim de semana. A pessoa passa um ano à espera das férias. Ora, um fim de semana nas férias ou apanhar o feriado de Agosto nas férias, é assim tão estúpido e inútil como ter uma lâmpada acesa na rua ao meio-dia de um dia de Verão. Hoje é domingo e deveria estar contente por ser domingo e estar de férias. Mas irrita-me ser domingo porque estou de férias, sendo indiferente ser domingo, terça ou quinta-feira.
Isto faz-me pensar na importância do negativo. E que Heraclito tinha razão ao dizer que precisamos da doença para dar valor à saúde ou se sentir fome para dar valor à saciedade. Nós damos valor ao fim de semana ou às férias porque trabalhamos. Isto mostra então que não tem piada nenhuma juntar o positivo ao positivo mas sim juntar o negativo ao positivo. Positivo mais positivo é tipo chover no molhado. É mais do mesmo, não aquece nem arrefece. O ideal não é mais e mais e mais mas contrabalançá-lo com o menos. Daí ser importante nunca perdermos a consciência da fragilidade da vida humana, da felicidade, do bem e de como os seus opostos estão sempre à espreita na próxima esquina.
Quando os intelectuais franceses do século XVIII se mostraram fascinados com os povos dos mares do sul, mostraram ser ingénuos tal como viriam a ser ingénuas as suas construções utópicas. A felicidade não se vai encontrar numa imaculada inocência adâmica e amoral na qual o bem está imune ao seu oposto. O bem precisa do mal e da imperfeição, tal como o fim de semana e as férias precisam do trabalho. Deve haver muita gente que acredita que o ideal é estar de fim de semana durante o período de férias. Não, as férias não precisam do fim de semana nem o fim de semana das férias, ambas precisam da dor e da chatice que é ter que levantar cedo para ir trabalhar das 9 às 5.
A ideia de luzes que vem do século XVIII, quer tanto iluminar o nosso caminho que acaba por ofuscar e criar uma espécie de cegueira que nos impede de ver o que verdadeiramente importa ver. Não por acaso, num dia luminoso de Verão, temos por vezes que proteger os olhos com a mão para podermos ver.