09 julho, 2013

PARLE À MON CUL, MA TÊTE EST MALADE

Mario de Biasi

Faço a seguinte experiência: fechar os olhos para mentalmente ver o rosto, sei lá, do presidente da república, do papa ou da chanceler alemã. É tão fácil vê-los na minha cabeça como ver o rosto de um vizinho, colega de trabalho ou familiar meu. Mas pensemos numa pessoa do século XIX. Essa pessoa sabia que havia um rei, que era D. João VI ou D. Pedro V, mas como poderia ela mentalmente ver o seu rosto? Ou o rosto de Napoleão Bonaparte? Ou o rosto de Verdi? Não passavam de nomes, simples abstracções sem qualquer referência física. Porquê? Porque não vivendo rodeados de imagens e de informação, não poderiam ver mentalmente uma coisa real que nunca efectivamente viram ou saber de uma coisa real da qual nunca ouviram falar.
Vem isto a propósito de uma bizarra experiência pela qual hoje passei ao ler esta notícia. Eu abro a notícia e vejo um nome do qual nunca tinha ouvido falar: Heidi Klum. Até aqui nada de anormal, acho eu. Muita gente nunca ouviu falar de Luciano Berio, Sylvia Plath ou Kieslowksi e ninguém morre por causa disso. O que foi verdadeiramente estranho foi acabar de conhecer uma pessoa e o primeiro contacto físico que tenho com ela ter sido logo através do seu rabo. Sei que a minha vantagem em relação a uma pessoa do século XIX foi, neste caso, enorme. No século XIX, Heidi Klum não passaria de um nome. No meu caso, para além de um nome passou a ser também um rabo.
O que é verdadeiramente espantoso é o facto de um rabo ser notícia, ainda para mais associado ao Dia da Independência dos Estados Unidos da América. Tão espantoso que acabo de eleger o rabo como o verdadeiro símbolo de uma cultura mediática que reduz as pessoas à condição de rabos. Eu folheio revistas ou faço um bocadinho de zapping na televisão e vejo rabos. Rabos, rabos, rabos. Ok, aparecem com rostos, com vozes, a fazer isto ou aquilo. Mas, no fundo, não passam de rabos, valem o que vale um rabo, têm a importância de um rabo. Eu vejo certos rostos e vejo apenas um rabo. Ouço certas pessoas a falar e é logo um rabo que oiço a falar. Vejo pessoas a posarem para fotografias em festas, casamentos, eventos sociais, alguns deles até culturais, e o que vejo são rabos a posar. Até chego a ver alguns comentadores a falar com toda a sapiência do mundo e o que vejo são rabos. Ou políticos que agem e tomam decisões como se fosse um rabo a tomá-las.
Nada tenho contra os rabos e não quero ser injusto com eles, coitados, que nada fizeram para serem comparados com tanta gente que me é imposta aos meus olhos. Mas num mundo cada vez mais mediático e no qual os rabos cada vez mais imperam, apetece-me dizer como os franceses: parle à mon cul, ma tête est malade. Uma maneira elegante de dar um pontapé nos rabos.