18 julho, 2013

O OVO DA SERPENTE


Alfred Eisenstaedt|1933

Consigo perceber a indignação referida nesta notícia, pois a revista é matreira com a sua capa ardilosa. Embora o rapaz seja apresentado como terrorista, e com as inevitáveis explicações biográficas, psicológicas e sociológicas da praxe, na verdade a capa altera tudo isso, aproveitando a boa imagem do rapaz para lhe incutir uma auréola de estrela. Tudo na sua imagem contribui para o confundir com um qualquer ídolo do rock: uma mistura de juvenil e urbana descontracção (o cabelo desgrenhado, o bigodito e barbicha mal amanhada, a t-shirt) com aquele ar grave e sério de adolescente triste e incompreendido, tão comum nas fotografias das estrelas juvenis. Neste sentido, haverá aqui uma perigosa manipulação da imagem, fazendo sobressair o seu ar cool em detrimento da sua identidade terrorista, a sua única e verdadeira identidade pública e jornalística, sem a qual ele seria um vulgar jovem americano, igual a tantos outros. A indignação não é, portanto, de todo descabida. Mas também podemos fazer alguma pedagogia a partir desta imagem, comparando-a com a fotografia de Goebbels que vemos em cima.
Esta fotografia foi disparada por Alfred Eisenstaedt em 1933. Não em Berlim ou na varanda de Berghof a apanhar os ares da montanha mas no Carlton Hotel de Genebra durante uma vulgar Liga das Nações, preparando-se neste momento para uma vulgar conferência de imprensa, naquele tempo, ainda só radiofónica (ver mais, aqui). 
Quem é este Goebbels? Não é um Goebbels construído pela propaganda, ao lado dos seus belos e loiros rebentos ou da sua germaníssima mulher, manifestando a mesma ternura e graciosidade com que Hitler brincava com os cães e fazia festinhas às teutónicas criancinhas.Nada disso. Um político. Simplesmente um político. Tão político como os seus homólogos franceses, ingleses ou holandeses que ali se encontravam. Talvez um pouco diferente por ter estudado Literatura e Filosofia. Um intelectual, portanto. Em suma, nada aqui permite vislumbrar o furioso político e ardente defensor da Totaler krieg e do Holocausto.
Porém, foi neste mesmo ano de 1933 que fez o seu célebre discurso no Palácio dos Desportos de Berlim, no qual, quase vomitando os pulmões, avisa que a paciência em relação aos judeus está a chegar ao fim e que irão calar as suas bocas mentirosas. Ameaça cumprida pouco depois nos campos de Auschwitz, Bergen-Belsen ou Treblinka.
Neste sentido, a fotografia de Goebbels está no mesmo plano da capa da Rolling Stone, no modo como ambas retiram todo o excesso dramático que envolve as duas personagens. Não me refiro ao processo (há uma enorme diferença entre a fotografia de um fotojornalista em reportagem e uma capa de revista conceptualizada) mas ao seu efeito, ao seu impacto, ao modo como nos interpela e condiciona as emoções. Daí a pedagogia: ajudar a perceber que o mal, o diabólico, o veneno são profundamente traiçoeiros, podendo vir de qualquer esquina e de onde menos se espera. A ideia não é tentar ver o terrorista como uma pessoa normal. É ver a pessoa normal como um possível terrorista. Parece a mesma coisa, um simples jogo de palavras, mas não é. Há uma mudança na ordem, no modo como arrumamos os conceitos, implicando isto não a ir, como é habitual, a jusante, mas a montante, ao antes de as coisas acontecerem, ao momento em que tudo é ainda normal, tão normal que acaba por ser inconcebível, ou seja, impermeável aos conceitos, à compreensão, à razão. No fim de tudo acontecer, haverá sempre uma explicação para tudo, lá vindo então as causas do costume. Isso é fácil. Desafiante é precisamente o contrário: compreender o excesso, o desvio, o desvario da razão no seio da invisível normalidade. E assim compreender melhor a radicalidade do mal, ab ovo, antes de vir à superfície.