04 julho, 2013

O MAU SELVAGEM


Bill Brandt

-Gosto da sombra e mando cortar as minhas árvores para que dêem sombra; não concebo que uma árvore seja feita para outra coisa quando, ao contrário da útil nogueira, não dá rendimento.
Eis as palavras mágicas que em Verrières tudo decidem: dar rendimento; por si só representam o pensamento habitual de mais de três quartas partes dos habitantes. Dar rendimento é a finalidade que decide tudo nesta pequena cidade que vos parecia tão bonita. O estrangeiro que chega, seduzido pela beleza dos frescos e profundos vales que a rodeiam, julga, primeiro, que os seus habitantes são sensíveis ao belo. falam continuamente na beleza da sua terra: não se pode negar que não façam caso dela; mas é porque atrai alguns estrangeiros, cujo dinheiro enriquece os hoteleiros, o que, pelo mecanismo dos impostos, dá rendimento à cidade. O Vermelho e o Negro


Quando eu era rapaz novo e ainda mais ingénuo do que sou hoje, ficava perplexo com fenómenos como o hooliganismo e a cultura punk, em Inglaterra, ou a estupidez e javardice humana representadas na pessoa de Alberto João Jardim, na Madeira. Não era perplexidade face à violência, à embriaguês ou à javardice. Podia ser ingénuo mas cedo comecei a discernir as máculas antropológicas. Era, sim, o facto dessa gente ter nascido e crescido em regiões cuja paisagem natural são uma benção divina, tornando-se assim numa espécie de excrescências ou detritos desses idílios paisagísticos como são o countryside inglês ou a ilha da Madeira. 
Na altura eu ainda acreditava que as pessoas em geral, para usar um termo de Miguel Torga, seriam geófagas*, achando por isso que a paisagem deveria ter um forte impacto no espírito das pessoas. E que quanto mais bonita e doce fosse a paisagem mais doces e esteticamente sensíveis seriam as pessoas. Com o tempo fui percebendo que não existe um nexo causal entre paisagem e psicologia. 
Eu sempre gostei de fazer longas caminhadas pelo campo. Não só por causa dos meus higiénicos devaneios de caminhante solitário, mas também pela fruição estética da paisagem. Mas sempre na qualidade de estrangeiro. Vou ao campo mas volto e vou ao campo com a consciência da cidade que procura o campo, havendo por isso uma distância entre os os meus olhos e a matéria olhada. E é precisamente essa distância que confere valor a essa matéria. Ora, ir ao campo não é o mesmo do que estar no campo, sem de lá sair ou nunca ter saído. Quem está lá não o vê pois confunde-se com ele num só todo. E quanto maior forem as fragilidades na satisfação das necessidades mais básicas do ser humano, maior será a incapacidade de distinguir o valor material de uma coisa do seu valor estético.
Por isso, apesar de chocante, não me surpreende uma notícia como esta. Não me surpreende quem destrói nem quem manda destruir. Claro que se trata de um caso extremo uma vez que estamos a falar de um monumento com 5000 anos. Mas não me surpreende, não só porque lhes falta a distância mental necessária para perceber o valor estético ou cultural do monumento, mas também porque o valor do dinheiro anula outros tipos de valor. Porém, se formos a ver tudo o que num país como Portugal foi sendo destruído ao longo de décadas, tanto ao nível do património natural como arquitectónico, desde a igreja de Santa Maria em Torres Novas à Lisboa de Krus Abecassis, perceberemos que um valor estético ou cultural está sempre em perigo, será sempre um valor frágil, sobretudo quando o dinheiro passa a ser o grande critério de valoração.
A beleza, na verdade, está muito longe de fazer as pessoas. Uma bela cidade ou uma bela paisagem não fazem as pessoas. É muito mais fácil ser a estupidez, a avidez, a ganância e o profundo mau gosto a fazerem as cidades e as paisagens.


* "Sou, na verdade, um geófago insaciável, necessitado diariamente de alguns quilómetros de nutrição. Devoro planícies como se engolisse bolachas de água e sal, e atiro-me às serranias como à broa de infância. É fisiológico, isto. Comer terra é uma prática velha do homem. Antes que ela o mastigue, vai-a mastigando ele. O mal, no meu caso particular, é que exagero. Empanturro-me de horizontes, e quase que me sinto depois uma província suplementar de Portugal"  Diário VIII, 1958