15 julho, 2013

O MAL DA BANALIDADE

Heinrich Kühn | c.1900

- Quero essas cartas imediatamente. Onde estão?
- Numa  gaveta da minha secretária, mas não lhe darei a chave.
-Saberei arrombá-la! - exclamou, correndo para o quarto da mulher.
Quebrou, efectivamente, com uma barra de ferro, a preciosa secretária de acaju, vinda de Paris, que habitualmente e com frequência esfregava com a aba do casaco, quando julgava ver-lhe qualquer nódoa. Stendhal, O Vermelho e o Negro

Diz o escritor que o marido, irritado por causa de uma discussão conjugal, destrói uma preciosa peça de mobiliário. Mas que significado tem aqui o adjectivo "precioso"? Pronto, uma coisa preciosa é uma coisa preciosa. E uma secretária pode ser de facto preciosa como um relógio ou uma peça de vestuário. Neste caso, porque a madeira é de qualidade e ao vir de Paris alimenta a vaidade de um casal burguês com pretensões sociais.
Mas existe um enorme fosso entre, por um lado, o escritor ou os seus contemporâneos leitores, que escrevem e lêem o livro no século XIX, e nós, que o lemos quase 200 anos depois, no modo como seguimos a destruição da preciosa secretária. Apesar do leitor daquele tempo ter consciência desta dramática destruição, trata-se, para ele, da destruição de uma peça igual a tantas outras que existem no seu tempo, na sequência de uma banal cena doméstica. O mesmo que aconteceria connosco se numa telenovela fosse arrombado o armário de uma cozinha Miele também durante um banal arrufo doméstico. Um valioso mas banal armário igual a tantos outros que fazem parte do nosso mundo, ainda que apenas acessíveis a pessoas com um bom poder de compra.
Porém, o tempo e a história tudo alteram. Aquela preciosa secretária destruída, hoje, seria uma preciosíssima peça de mobiliário.  Vamos mesmo supor que nem sequer se trata de uma preciosa secretária num burguês quarto do século XIX, mas de um banalíssimo prato de louça que se parte ao escorregar das mãos enquanto se põe a mesa para o jantar, ou de um banalíssimo brinquedo que se deita fora porque entretanto a criança cresceu e não mais voltará a brincar com ele. Para o leitor do século XIX, ler que um prato se partiu ou que um brinquedo se transformou em simples despojo, deverá ter o mesmo impacto que tem para nós ler a descrição da queda de um banal prato que se parte ou brinquedo que se deita fora. E sem darmos por isso, existe um processo projectivo no modo como, enquanto leitores actuais, lemos um romance do século XIX: a secretária de 1830 é uma secretária das nossas, tal como o prato ou o brinquedo de 1830 são um prato ou brinquedo dos nossos. Mas o prato e o brinquedo seriam hoje valiosas peças de museu, religiosamente conservadas pelos seus donos ou museus, e não um prato ou brinquedos dos nossos.
O tempo e a história não servem apenas, felizmente, apenas para destruir o presente mas também para fazer viver o que lhe sobrevive precisamente porque se trata de um presente que deixou de o ser. O que existe de dramático neste processo é o facto de o presente e o passado estarem impossibilitados de se tocar, de coincidirem um com o outro. Não podemos ter a consciência simultânea de um banal objecto do nosso quotidiano e do seu futuro valor. Quando deitamos fora uma bisnaga de pasta de dentes, uma caneta, um talher ou um sofá, porque temos a consciência da sua inutilidade ou desgastada banalidade nunca conseguimos compreender que estamos a deitar fora um objecto que irá ser histórico, um objecto valioso e com grande potencial museológico.
Por isso, aquela secretária do romance de Stendhal jamais será a nossa secretária. O que faz a secretária é a consciência da secretária e a consciência daquele marido que dirige a sua fúria para um objecto do seu presente jamais coincidirá com a nossa melancólica consciência de um objecto passado que, neste caso, morreu durante a mais banal de todas as cenas: uma doméstica e conjugal discussão.
O tempo é amigo mas também cruel. Aliás, é amigo porque é cruel e cruel porque é amigo. Por isso devíamos pensar sempre nele antes de fazermos tudo o que fazemos na vida. Porque muito do que hoje é banal um dia irá deixar de o ser.