07 julho, 2013

NÃO TE DEIXASTE MORRER, JOHN WAYNE


Na sua autobiografia, Marlene Dietrich, embora com elegância e discrição, diz que John Wayne não passava de um bronco. Mais ou menos chocada, lembra o facto de ele assumir com toda a naturalidade não ler um único livro. Depois, conclui que ele é a prova provada de que não é preciso ler livros para se ter uma carreira de sucesso. Mas a verdadeira conclusão vem a seguir: sim, é verdade, mas não aconselha a fazê-lo. Para bom entendedor, meia palavra basta. Dietrich é um sex symbol. Aliás, até mais do que isso, porque chapéus há muitos, ela era, por antonomásia, as pernas, tal como Bette Davis, os olhos. Mas era também uma mulher de grande fineza intelectual e não seria qualquer homem que a levava ou, generalizando, que levaria uma mulher como Dietrich. E Wayne, claro, jamais a levaria.
Nas suas memórias fala de muita gente, em registos bem diferentes. Desde o ódio que sentia por Fritz Lang, admiração por Hitchcock, instinto pio e protector perante as fragilidades adolescentes de Piaf ou a eterna gratidão por Joseph von Sternberg. John Wayne, o grande John Wayne, o épico John Wayne, o herói, bravo, corajoso John Wayne fica apenas reduzido à vil condição de bronco. Wayne é a bronquice.
Para quem admira o grande actor americano, como é o meu caso, faz alguma confusão. Quero lá saber que o homem não lesse um livro. Eu quero é vê-lo em cima de um cavalo, de lenço ao pescoço, lá na vida dele. Mas isto sou eu a falar. Para mim, John Wayne não é um homem, é um actor. Para Dietrich, pelo contrário, ele não era um actor mas um colega de profissão, um companheiro, com quem passou horas a conversar nos inúmeros tempos mortos em que não se está a filmar. Ora, esta promiscuidade entre vida pessoal e arquétipo não deixa de ser perturbadora ou até irritante.
Aquiles ou Heitor não são Ésquilo ou Sófocles. Os golos de Eusébio não precisam de literatura, as fintas de Chalana já tinham poesia que chegasse, Amália podia cantar David Mourão Ferreira mas não teria que fumar cachimbo e falar com arrebatamentos estéticos de Florença ou de Simonetta Vespucci. As biografias podem ter um valor hagiográfico mas também podem ser o seu contrário. Mitos são mitos e mitos devem ficar. Sossegadinhos e protegidos de todas as ameaças profanas. 
John Wayne era um bronco que não lia um livro? Ok, uma chatice para Dietrich, que queria companhia para conversar durante longas noites estreladas no meio do nada. Mas ainda bem para nós. Olhar para aquele latagão de 1 metro e 92, cheio de pó e a cheirar a cavalo, e conseguir vislumbrar um rasto de intelectual sabedoria e erudição, poderia tê-lo levado às boas graças da alemã. Mas tê-lo-ia tirado dos nossos corações.